Uma Noite na Taverna

20 Maio 2012

Contos de um Concurso


 Não havia como reescrever em hortelã o gosto amargo da noite mal dormida.
Com o sufoco dado ao tráfico na cidade do Rio, cresceu o tiroteio nas comunidades de São Gonçalo e até o funk ensurdecedor dos bailes de sexta do movimento emudeceu.
O tira-sono agora era o rá-tá-tá das metralhadoras, pontuadas ritmicamente pelas pistolas e granadas ocasionais na estranha luta por um território onde poucos querem morar e muitos moram amontoados.
Senti medo de morrer de surpresa no sofá da sala sem ter dito a Marisley o nome que nossos filhos teriam. Pra aplacar a angústia, abri várias cervejas e fumei quase um maço assistindo a algum filme de guerra. A vizinha, crente, sintonizou em algum programa messiânico, chorava e berrava tanto por Jesus que cheguei a achar que ele fosse surdo.
Esforcei-me para domir com a combinação funk-tiroteio-correria-vizinha histérica mas não precisava me preocupar. A profusão de despertadores dos celulares chineses não me deixaria perder a hora de sair.
Pela manhã, era descer a escadaria e caminhar até o ponto de ônibus, onde sortudos como eu, vêem o sol nascer apenas para garantir um lugar sentado no coletivo e enfrentar menos horas de engarrafamento.
Eu queria mesmo é ser burguês. Viver despreocupado como o meu patrão que, a essa hora, certamente está dormindo.
  • Bom dia, seu Carlos!
  • Tudo bem, José? É bom vê-lo aqui, sempre cedo, pegando firme na faxina.
  • O senhor esqueceu de recarregar o meu vale-transporte, sabia?
  • E como você fez pra chegar?
  • O trocador do terceiro ônibus me deixou vir em pé ao lado dele. Ouvi “desce” em côro na primeira condução. Desci humilhado, sem um puto no bolso. A segunda tentativa foi ainda pior pois tive de ouvir de um estudante que um fudido estava atrapalhando sua vida.
  • Que coisa horrível!
  • Horrível mesmo foi saber que a firma onde eu trabalho está envolvida no escândalo de super faturamento das licitações e vocês sequer carregaram o meu vale transporte.
  • Quem te disse isso?
  • O trocador, Seu Carlos!

    ##########################################################################

    Juliana tinha agora oito anos. Perguntava a mãe, Dona Ester, o significado do mundo, o nome das estrelas e das flores, fingia ser princesa e sorria lindamente enquanto corria com as outras crianças no pátio do batalhão de infantaria.
    Mas, toda vez que chovia, Juliana chorava em desespero e não adormecia à noite. Chamava pelo pai, um dos muitos desaparecidos no desabamento do Morro do Bumba, em Niterói. Seu choro soava forte pelos corredores do abrigo improvisado que virara casa para mais de setecentas pessoas arrancadas de seus lares. Não podiam reclamar da menina ou repreendê-la. Todos ali também choravam, ainda que em silêncio, como Ester.
    • O que significa viçoso, mãe?
    No abril de 2010, no bairro de Viçoso Jardim, o morro, coberto não por verdejantes árvores ou arbustos mas pelo intrincado emararanhado de casas, veio abaixo. Diziam que a comunidade erguera-se sobre um aterro sanitário mal feito. O governo tentou empurrar a culpa para os moradores. A imprensa denunciou um montão de coisas. Coisas que seriam levadas mais a sério se não fosse ano de Copa do Mundo.
    • A gente vai ter uma casa só nossa, mãe?
    Em outro aterro sanitário mal feito, na casa de sua tia no bairro de Itaoca, Ester e sua filha souberam da tragédia. Haviam saído de casa no dia anterior ao deslizamento. A mãe chorou por vários dias enquanto via os caminhões de lixo tóxico e escombros despejarem o Bumba no município vizinho. São Gonçalo era o enorme tapete pra onde o governo de Niterói havia varrido o seu lixão.
    Juliana demorou a entender que não voltaria para sua casa. Demorou a entender que não veria seu pai atravessar a porta trazendo pirulitos.
    No lixão que acolheu o lixão não poderiam morar. A quantidade insuportável de moscas era um risco à saúde da menina. Após enfrentar sem sucesso o IML, reconhecendo os corpos de vizinhos e amigos sem achar o de seu marido, Ester levou a filha para o abrigo na Venda da Cruz. Não enterrou o companheiro. Não recebeu a pensão.
    Ela pôs a filha no colégio, ganhou um ar duro, levou a tia para junto de si e passou a trabalhar como diarista.
    As crianças reinventam a vida. No batalhão, Juliana fez amiguinhos e viu passar dois aniversários. Pediu um presente especial no último:
    • Não tem foto do papai, mãe?
    • Tem essa aqui, filha. - E a menina sai correndo, satisfeita com a foto três por quatro arrancada de um documento.
    Chovia naquela tarde quando sua mãe abriu a carta que finalmente lhe deu direito à pensão deixada por Argemiro. Não conseguia entender a forma estranha com que ela sorria. Mas ao ver que as nuvens emprestaram lágrimas a Ester, Juliana perdeu finalmente o medo da chuva.

    ###########################################################################


    • Segura a bolsa da velha, Maneco! - grita Jorge para o franzino moleque nascido sem pai e criado na rua.
    • Ladrão! Ladrão! - grita a velha, Eulália, na esquina da Ouvidor, segurando forte a alça puxada pelo “trombadinha”.
    • Ladrão! Pega! - gritam a menina que sai do McDonald's indignada, o universitário, o camelô, o executivo e o guarda municipal que nunca passava a essa hora.
    O plano era atacar os mais fracos e distraídos na “muvuca” do centro da cidade à hora do almoço. Melhor momento do dia para não encontrar heróis. Preocupados demais em voltar ao trabalho depois de encontrar um lugar pra comer ninguém atrapalhava. Os bandidinhos eram predadores soltos na savana de concreto. Mas, dessa vez, o assalto a bolsa listrada da coroa de cabelo azul “deu ruim”, atraiu atenção demais.
    • Fudeu, menor! Rala peito! - e os seis que o acompanhavam somem na multidão como se tivessem sido engolidos pela cidade.
    Muita gente nervosa falando alto e avançando em direção a Maneco. Vai ser porrada de novo, zoação, quiçá FEBEM. Esculacho, tapa na cara, um monte de esporro e palavrão esquisito:“punguista!”, “meliante”, “infrator”.
    Assustado, o moleque de doze anos, com mãe viciada em crack e duas passagens pelos abrigos da prefeitura do Rio, converte o “puxão” dado à bolsa num abraço. Já viu alguém que se pusesse na posição fetal de pé? Com o polegar na boca e os olhos cheios de lágrimas, preparando-se para ser imolado, o rosto do menino se transforma. O olhar de desamparo toma o lugar da máscara feroz que assustava os incautos transeuntes dessa esquina da Avenida Rio Branco.
    A multidão não quer saber de nada não. Quer cobrar de Maneco a dívida da quadrilha de meninos liderada por Jorge, quatorze anos, que atua na área que vai dali até o Largo de São Francisco.
    • Vai chorar agora, né, seu bostinha?
    • Esse fingimento aí não te salva não.
    Mas Eulália, encontra o olhar do garoto e vê que o medo havia lavado a maquiagem de ódio e abandono. O guarda municipal balança o cacetete. Ela se ajoelha, abraça Maneco e o comprime fortemente contra as tetas murchas. A multidão ainda grita. Ela sussurra “calma” em seu ouvido. O camelô quer ver sangue de criança espalhado na calçada. Ela pensa nos filhos que deixou abandonados no Pará há trinta anos. O executivo quer separá-la do menino. “Você podia ser meu neto”, diz, emocionada, puxando-o pra longe dos linchadores.
    Maneco vê nos olhos da mulher uma dor parecida com a sua. Sente novamente um doce carinho de mãe. Teria ele encontrado a redenção naquela tarde? Seria adotado pela madame carente? Iam acabar a noite ao relento, a lata de benzina e as agressões?
    • Assim ele vai escapar, minha senhora. - diz a menina do milk shake.
    Ele sabia que não ia ser ali nem hoje.
    • Desculpa, vovó! E obrigado! - sussurra Maneco desvencilhando-se do terno abraço pra sumir com a carteira da idosa na mão.


      ###################################################################

      A Bel

      Você pode intuir o que é bom e belo, pode intuir o que é perfeito e harmonioso, o que é justo ou não. Só não poderá fazê-lo sob a influência do amor. O amor, caro amigo, nubla o juízo e a temperança, ignora o senso comum e nega a recompensa aos que realmente a merecem.
      Inveja? É inofensiva e lisonjeira, coisa para disputas menores. A disputa pelo amor, essa subverte a lógica das alianças naturais e pode inverter a polaridade das intenções.
      Eu sempre tive orgulho das minhas realizações. Fui o melhor aluno da classe, o atacante goleador, aquele que aprendeu inglês antes dos quatorze, que ganhou bolsa para ir à Europa e que sabia tocar piano.
      Pergunte-me onde estava ela?
      Dando atenção a Maribel e às suas futilidades. Nunca disse uma palavra elogiosa ao meu desempenho escolar, sentou na arquibancada para torcer pelo filho ou o viu conquistar seus prêmios. Acaso eu não fazia mais do que a minha obrigação? Sim, podia fazê-lo por mim, como você diz. Mas toda vitória era incompleta e troféus de nada valiam sem o seu reconhecimento. O maior troféu de minha mãe não era eu por mais que me esforçasse.
      Cobiçava àquela atenção dada ao balé de minha irmã, a sua dedicação em melhorar as notas da menina que gazeava aula para brincar com a maquiagem roubada e bebia escondida os licores de papai. Cobiçava algo que era meu por direito e que me foi negado.
      Maribel parecia não parecia perceber o quanto aquilo me desagradava. Procurava por mim para contar suas histórias absurdas de namoro e bagunça. Isso me deixava ainda mais irritado. Como lutar contra um inimigo que não o odeia? No fim das contas, percebi ela não era a culpada pelo meu abandono sentimental.
      O que eu fiz? Passei a odiar as duas e busquei a distância num outro país. Maduro, né? Não queria mais ver a condescendência materna com a vida desregrada que maninha levava.
      E o que me perturba agora, doutor?
      Encontrei, mamãe no funeral de Bel depois de quatro anos em que sequer nos falamos.
      Ela me disse que se tivesse sido mais irmão ela não teria embarcado na dependência química. Aquilo foi uma porrada na cara. Refleti sobre o tempo que perdi mergulhado naquele sentimento escroto e edipiano. Antes tivesse me despido do orgulho e aberto meu coração. Realmente poderia ter convivido mais com Bel, não tê-la salvado, mas aproveitado o amor que ela teria me dado se não estivesse tão obcecado com a disputa.
      Não sei se fiz certo em responder, doutor. Senti que me vingava.
      O que respondi?
      “A culpa foi sua, mamãe.”





22 Abril 2012

Do calabouço




Há uma dúzia de metáforas lá fora
Aqui dentro não há nada sublime
Não há ritmos ou paisagens inspiradoras
Ou vontade de recriar a realidade
Recontar a história da humanidade
Apresentar seus mitos, uma prece,
Ou entoar uma canção.

As metáforas lá fora
E aqui dentro um cansaço
Um tédio com a marcha do mundo
Com a política e as escolhas de meu país.
Logo eu, que não acredito em fronteiras,
Quero agora sofrer com as escolhas dos outros?

Eu que não entendo nada
E ando cheio de opinião
Que sei das engrenagens sinistras da máquina do mundo
E ainda me assombro com sua música
Deixei aberta a caixa onde a esperança
Residia como um pássaro cativo

E, sem esperança, ó musa
Como sairei as ruas com a mesma empáfia
A desafiar a cretinice do planeta
Ignorando os falsos profetas e caretas?
O meu escudo da fé amassado
Vários cigarros ao lado do copo de cerveja.

Aqui dentro, uma pátria sem deus,
Onde as regras do mundo são piada,
Onde o sonho é a armadura
E a palavra é a espada,
Construí um castelo de argumentos
E me escondi sem lágrimas no calabouço

Mas há uma janela sem grades, há o tempo.
As metáforas não se foram, querem transformar
Esperam que eu ponha a cara lá fora, suba em palanques
E me embriague de poesia e vinho novamente
Por enquanto há somente o desabafo, a solidão
Palavras que se negam a tomar a forma de versos

Quando você voltar a sorrir ao meu lado, ó musa
e a esperança pousar em minha torre de idéias
Num outro dia, quando acabar o cansaço
Volto a crer que algumas palavras possam fazer a diferença
Volto a me embebedar de virtude
E a me importar mais com o mundo lá fora.

20 Março 2012

Paredes





O teu senso de emergência é justo e sensato
Mas quando o coração não obedece regras e tropeça
É o amor e não a razão que o pega no colo e o embala

Não quero ser deixado em silêncio enquanto faço versos
Quero escrevê-los na tua pele e ouvir-te reclamar das rimas pobres
Pois ofereço-te uma antologia e não lindo buquê de flores mortas

As pessoas vivas caminham pelo mundo e fazem juntos suas canções
De outra forma é o erro de esperar pelo outro
Há seres que voam e seres de pedra que vivem para sempre

Ela não percebe que as palavras podem colorir o dia
E que eu preciso dela de forma tão ilógica quanto um abraço
Mas percebe que a parede da sala está descascando

E eu que o dia irá permanecer cinzento

11 Março 2012

Paisagens Emocionais



O mundo exige direção e coordenadas
A vida, por vezes,
Um labirinto
Em que escolhas são tomadas
Como se o minotauro nos perseguisse
Não permite emoções
Que não estejam enlatadas
Com data de validade e selo do Inmetro

A poesia é um luxo a que me doô contente
Num mundo que
definitivamente
vai a lugares onde não quero ir

A poesia me transporta
para um lugar mais alto
E me deixa lá
Perdido nas paisagens emocionais
Eu me deixo pra lá
Em paisagens emocionais
e me encontro  

Na regra da rima



Pout Pouri Porrada

A religião é uma droga que não te deixa pensar baseada em mentiras que levam a nenhum lugar.
E enquanto você obedece,
a humanidade emburrece
e algum pastor enriquece,
consegue virar deputado.

A ignorância prevalece,
você não olha pro lado,
você não olha pra dentro e pega um Deus emprestado.

Você tem medo do inferno,
arranja um culpado pra tudo,
dizer que Jesus te ama não salvará este mundo.

Bate o tambor pra Iansã,
arranja um Deus melhorado,
olhe pra dentro de si,
você sabe o que é errado.

Deixe o seu Deus ser você e nunca algo inventado.

O que é certo lhe faz forte mas pode deixá-lo isolado.
Coração bate acelerado enquanto procuro saída,
quem sabe uma rima ou verdade que possam salvar minha vida.

A patologia mental de não querer tomar remédio,
sentir ódio,
tesão,
alegria,
amor,
compaixão,
tédio.

Patologia mental de fazer rima,
que é melhor do que cagar regra.

O mundo te dá porrada enquanto a fé se desintegra.

Mas você segue teimoso
como se fosse coeso,
como mártir de si mesmo,
como se carregasse um peso.

Prefiro passar os meus dias sem acreditar em mentiras,
não preciso de ideologias,
prisão aos hipócritas falsos Messias.

Renegado,
revoltado,
é disso que se é chamado

quando se opta pelo que é certo
e não pelo que é ensinado.

É tempo de paz, tempo de reflexão e parar de perder tempo em frente a televisão.
É tempo de razão, tempo de labuta,
botar idéias em prática e prosseguir na luta.
É tempo de não perder mais tempo, não perder mais.
É tempo de olhar pra frente e de seguir adiante.
É tempo de ganhar tempo, sabendo o que ficou pra trás,
ignorando a mentira constante que contavam a nossos pais.
É tempo de não perder mais tempo,
tempo de não perder mais.

Agradeço aos amigos que me têm estima,
sofro muito com minhas regras,
me liberto com minha rima.

20 Janeiro 2012

Honestamente




Grandeza não é grandiosidade, 
pobreza não é humildade,
certeza não é razão,

vaidade não é virtude,
dinheiro não é saúde, 
honestidade não é opção.

20 Novembro 2011

Sobre guardanapos



Aos jovens poetas um conselho:
Escarrem a verdade sobre os guardanapos
Encham de sangue e porra esse lirismo
Não façam poesia em frente ao espelho

30 Outubro 2011

A superação da mágoa





Eu não sei por que decepções você já passou.
Eu passo por várias
A todo instante.

Não sei bem se a freqüência das vezes com que a gente se decepciona diz algo sobre nossa inteligência.
Mas sei que fortemente nos faz acreditar que nós é que somos tolos.

Somos tolos encantados por uma esperança de redenção
Algo puro que o universo dá a quem trabalha a sua consciência de vida
Algo que não caiu do céu embora sagrado
Está escrito na alma de todo ser humano
E não nos manuais religiosos da culpa e do medo em sermos livres

Confiamos demais em nossas visões de mundo
E achamos que não há tons de cinza para o que é certo e verdadeiro.
Apenas, porque mentimos e erramos
mas nos arrependemos e sentimos remorsos,
Nos dói saber que não somos perfeitos para com os outros.

E a pior decepção é
perceber que nem todos são como nós.

Mas todos nós passamos por decepções
E há as que querem criar raízes em nosso coração
E tornar-se mágoa.

Quem se decepciona com o mundo por querer colocá-lo do jeito que ele deve ser
Vai nadar num rio caudaloso de ira e rancor
E se afogar no redemoinho cruel do ódio

Para ir em frente e superar a mágoa
Precisamos enxergar as cores do mundo
Nada é preto e branco.

Deixe que as pessoas sejam como são
E permaneça puro

Pois a pior decepção seria
A de admitir que foi você que se rendeu.

20 Outubro 2011

A quem venderei minha alma?




A quem venderei minha alma ?


Canto I

E não foi então que me vi afastado da vida real
E chorei copiosamente por me saber um completo idiota
E vi que o inferno habita na dúvida e não no erro

Como o que acorda com um tapa na cara
Sentindo-me ainda tonto do que houvera
Retirei da fronte a grinalda de hera e segui em frente.
A selva densa era um mar de gente e treva

Eu queria me encontrar com o DIABO!

E, sem Virgílio, Drummond ou Pessoa
Atravessei os portões da agonia
Sem querer mais a santidade dos passos de outrora
Mas o segredo da heresia
Abraçado a poesia
a mesma literatura que me deixou doente.

Canto II

Antes que me peguem pelo braço explico
Que esta vida real que ainda me foge ao entendimento
Palco de guerra, desejos e pecados capitais
É, para vocês que não sabem o que é viver o sonho,
O mundo.
O mundo que vos cerca
Ensinado por suas famílias
Nos catecismos e terreiros
Nas trincheiras
No trabalho tautométrico e
Que lhes foi mal ensinado nos livros didáticos
Ou invade a sala pelos telejornais
Na teledramaturgia do merchandise
E em documentários inteligentes do History Channel.

Tolos, todos vós que pensais, que este mundo é o inferno.

Canto III

Esse mundo de enganos da vida real
A vocês, que não sabem o que é viver o sonho,
Pode parecer injusto, cruel e ingrato.
Mas, para sua tristeza final o que é certo
E é fato
É que este mundo cruel
Injusto
Guloso
Avaro
E preguiçoso
É apenas o nosso retrato.
Apenas o nosso retrato

Canto IV

Ah! Mas por quê me embrenhei desperto em meio a treva?
O que quero eu com esse blá blá blá

Eu quero é me encontrar com o DIABO
E vender-lhe, pessoalmente a minha triste alma
A troco de nada além do esquecimento.

O vigário pediu minha alma
E quis me dar salvação
O pastor cobrou mais caro

O pai de santo prometeu um acordo
O meu patrão um abono
A minha mãe apenas pediu pra que eu fosse bom

O garoto do sinal me pediu um real
A platéia pede que você sorria (ou morra)
O que for mais divertido

Os invejosos querem meu sangue
As putas me pedem dinheiro
E vocês, talvez, apenas um bom poema

A felicidade, cenoura pendurada em frente ao burro,
Me trouxe sangrando até aqui

O amor talvez me pedisse menos se me amasse

Canto V

Vocês ainda se perguntam o que é o inferno?
O inferno é o passado
O não esquecimento

O purgatório é o seu presente
E a cenoura, seu futuro.

DIABO! DIABO!
Apenas em troca do esquecimento.
Pois sinto remorsos e ainda tenho esperanças
Ainda me decepciono com o ser humano
E vivo no sonho
Adoecido pela literatura

A quem venderei minha alma?
Procuro quem faça bom proveito dela.

Talvez nem ao DIABO ela interesse
Pois sou cheio de Ira, orgulho e vaidade.
E não há como não ser mastigado pela mandíbula maldita de Belzebu

Você quer comprar minha alma?
Pra fazer o quê?

Comprem, por favor!
Ela não vale mesmo nada
Ela vaza em letras empilhadas em versos

Talvez façam melhor uso dela
Do que eu.

26 Setembro 2011

Soneto da Saudade




Reclama, amor, de toda ausência minha
Que meu peito se encarrega do castigo.
Tendo ciência de que não estás comigo
É minha alma que parece estar sozinha.

Acostumei-me mal ao teu bem querer
E agora, amor, te quero sempre perto
Embora seja certo que me agrade
Saber que mal também te faz a falta

Acostumei-me mal e, apaixonado,
Vejo o relógio me olhar desconfiado
Horas sem ti transformam-se em trator.

Ah! Saudade, sentimento estranho
Que nos mostra a beleza e o tamanho
Da falta que nos faz o nosso amor.

23 Setembro 2011

BIG BANG LOVE

Meu coração é espesso
Denso
E por tua causa ele brilha

Meu ego colapsa
Desapareço
Não me encontro mais em mim

Só me reconheço no mundo
No reflexo de tua íris
Ouvindo as tuas palavras de apreço

O teu amor é o milagre cósmico
Que me arrancou da escuridão d'alma
E me lançou como um quasar na realidade

O teu carinho é a felicidade
O teu olhar
Horizonte de eventos


20 Setembro 2011

A Dança



Eu lhe peço a dança
Você me balança
Nosso mundo gira
E ninguém se cansa

Você faz o passo
O amor atravessa
Eu não tenho pressa
E ninguém se cansa

Minha mente brilha
Risos de criança
Você compartilha
E ninguém se cansa

O corpo se entrega
Alma então flutua
Dançam os amantes
Sob a luz da lua

Envoltos no abraço
Chuva como orquestra
Seu toque sequestra
Você diz: "Sou sua."

E dá-se novo passo
Coração em festa
Nessa brincadeira
Em que ninguém descansa

Seguimos bailando
Nossa própria música
Pela vida inteira
E ninguém se cansa

18 Setembro 2011

Sorrisos na Sarjeta





A cidade não acorda... Este tempo não acorda... 
Não gosto quando falam dos problemas deste tempo como se houvesse um glorioso passado
Assassinado como Cronos pelo zeitgeist de uma geração acéfala
O sorriso cariado deste presente é fruto do descuido das gerações passadas
Descuido com a verdade sobre o que é estar no mundo e no olhar sobre nossas escolhas


Mas é um tempo bom e cheio de possibilidades 
que ainda choca os hipócritas que se negam a admitir
o recente fim da escravidão negra e o racismo 
a cocaína vendida em farmácias, o aborto entre silvícolas
ou o homossexualismo na Grécia Antiga
E tratam a exposição destas questões como se fossem inéditas
Como se o passado e o presente não fossem um constante processo de transformação
A barriga da menina de nariz escorrendo pedindo um real pra comprar crack
Enquanto o moleque faz malabares no engarrafamento lotado de últimos lançamentos
Dá pistas do que irá morrer para as gerações vindouras:
Nossa dúvida sobre se estamos no caminho certo
Nosso senso de responsabilidade
O futuro.


Perdido em algum meio fio, junto à guimba de cigarro amassada, 
eu deixei o meu sorriso ao vê-la, sonâmbula,
iludida,
jogar sua vida nas mãos de políticos boiadeiros, religiosos milionários, intelectuais pequeno burgueses e pseudo artistas
tangendo pessoas como gado em direção ao abate.

Estou cansado de Messias, homens perfeitos porque mentem com método e nunca se arrependem.

Cansei de sorrisos falsos e cascas vazias.
Cansei da diplomacia.
Cansei da velhice caquética e seu falso passado.
Cansei do maniqueísmo, dos suburbanos soberbos com seus bairrismos.
Como mudar o rumo dessa cidade nestes tempos?
Como lançar ventos nessa Nau dos tempos?


(Porque a hora é now, you know
Eu só não tenho know how)


Um nó, um grito. Serei mártir ao tocar berrante pra mudar esse destino?

Há um nó na garganta que não se desata.

Abandono a sala no meio de algum reality-show-sadomasoquista e vou em direção a sarjeta pra procurar aquele cigarro.
Não há como encontrar o sorriso perdido nessa cidade... nesse tempo.








Tempos Felizes
Henrique Santos




Nunca vivemos tempos tão felizes
Nunca vivemos tempos tão bons


Podemos escolher a grossura da chibata
Ou discutir o peso de nossos grilhões
com nossos patrões
Podemos transformar nossos amigos em escravos
Alimentar a alma apenas com ilusões


Vamos então à rua assassinar crianças
Apenas pra vendermos mais notícias nos jornais
É tempo em que podemos vender sonhos e esperanças
Em pleno horário nobre ou nos comerciais


Nunca vivemos tempos tão felizes
Nunca vivemos tempos tão legais

28 Agosto 2011

Poemas Menores - A Vida Presente



I

Não ligues amor para o que passou
A vida é presente e não mero acaso
Pacote fechado no meio do caminho em que sempre tropeçamos

Ocupados
Preocupados
com promessas desta e de outras vidas
com passados, culpas e feridas
Deixamos o presente de lado

Mas ele sempre estará lá
Bem embrulhado ou amassado
Esperando que você se surpreenda
Brinque sem medo
E cuide com mais zelo deste seu novo brinquedo

Você não quer abrir?


13 Julho 2011

As Luzes não se apagam na cidade



As luzes da cidade não se apagam

Em vão

rabisco nos muros recados a minha amada

Ela não sabe

ler a noite sem estrelas

de meu coração



As luzes da cidade me acendem

E parto

para os braços de um amor

Que finge não ler os versos que escrevi



Abandonei por vergonha o homem de ontem

E fingirei

Contente

que pareço

O Homem sem rosto do comercial de dentifrício



Ah! Como é difícil amar hoje em dia

Sem a máscara ignóbil do homem perfeito

Que não faz versos em muros à luz da lua



Onde estás Pagú, Leila Diniz?

Ondes estás Diana, Janis, Jimi, Billie, Rita?

As luzes não se apagam na cidade



Desviei de meu caminho

São pra vocês estes versos

Vou em busca de vocês!