12 Julho 2009

Malvados Kick Asses 


14 Junho 2009

Tirésias 




Texto extraído do site de Millör Fernandes

Um de meus mitos favoritos é Tirésias, o sábio, o profeta, o adivinho cego de tantas historias e peças gregas. Que Tirésias era cego e adivinho todos sabem. Mas a história de como virou ambas as coisas é menos conhecida. Um dia Tirésias ia passando por uma espécie de Pantanal do Olímpio e viu Atenas tomando banho nua. Atenas, indignada, atirou-lhe água em cima, transformando-o em mulher (*) durante sete anos. E, como ele insistisse em olhar, Atenas atirou-lhe água também nos olhos, cegando-o. Mais tarde, arrependida, e não tendo mais o poder de restaurar-lhe a visão, a deusa restaurou-lhe a masculinidade (**), dando-lhe o poder divinatório e a compreensão da linguagem dos pássaros. Magra compensação. Tempos depois, passando em meio aos deuses Juno, Júpiter e ApoIo, que discutiam ardentemente sobre quem obtinha maior gozo numa transa, o homem ou a mulher, Tirésias, que tinha experiência de ambos os sexos, foi chamado a opinar. E não vacilou - declarou que a mulher goza 10 vezes mais.

Moral: Pelas loucuras que já vi muitas fazerem por tão pouco, Tirésias tem toda razão.


Millör Fernandes

01 Junho 2009

Inocentes blasfêmias - Parte I 




E o bom carpinteiro José chega a casa de seu amigo Jacó para contar-lhe cheio de alegria sobre o futuro casamento que arranjara para si.
Os pais das tradicionais famílias de Nazaré recusavam-se a aceitar que suas filhas pudessem desposá-lo. Não viam com bons olhos seu sucesso comercial com os romanos. "Puro preconceito! Coisa de invejosos implicantes!" - dizia José. Bem, o certo é que não havia ninguém que fizesse melhores banquinhos e cruzes naquela região. Não era sua culpa se as cruzes estavam mais na moda, ora bolas. Pra piorar, ele não era mais um garoto e, quanto mais velho ficava, mais difícil seria arranjar bom casamento.

_ Jacó, conheci uma linda mulher. Não passará uma semana e estaremos casados.
_ Bom para ti, José. E quem desposarás com tanta pressa?
_ A linda Maria, prima de Isabel.

Jacó empalidece.

_ Pelas barbas de Matusalém, José! Acaso não sabes?
_ De que falas, homem?
_ Tua futura esposa está grávida. O cuco andou visitando teu ninho.
_ Por Isaías, cala-te agora, Jacó, que irei saber com Maria se tem fundamento este murmúrio malicioso.
_ Corre então à sua casa antes que o ventre da bela Maria não possa mais me desmentir. Sinto por ti, José, mas se ouve sobre isso até mesmo na taberna.

José, deseperado com o escândalo, vai procurar sua noiva para tomar satisfação. Seu casamento dos sonhos arruinado.
Eu posso imaginar o babilônico perrengue passado pelo apaixonado carpinteiro.

_ Maria?
_ Sim, meu futuro esposo.
_ Maria! -diz José aos berros- Estão falando que tu me corneaste antes mesmo de casarmos. Acaso me queres conhecido por José, pai do cuco.

E Maria, aflita e desesperada, chora sem consolo.

Pois é, eu penso que José, como a maioria dos homens, não resistiria a uma mulher chorando.
Quero crer que neste ponto José, mesmo com raiva, consegue olhar para a linda Maria chorando e refletir sobre sua dificuldade em se casar. Olha para Maria que, mesmo grávida, é a mais linda jovem bem nascida de Nazaré e vislumbra seu possível arranjo futuro com uma velha viúva interesseira. Ele sabia que se largasse Maria agora confirmar-se-ia o falatório da gentalha e poderiam até apedrejá-la. Ver aquela pequena apedrejada sem que ele ao menos pudesse gozar de seus encantos? Não dava pra deixar isso acontecer. Pensou na idiotice que seria achar que um simples hímen, uma foda fora do casamento e uma gravidez clandestina poderiam separá-lo daquele pitéu. Iria perdoá-la pelo deslize pois: "A água, embora rara no deserto, ao banhar os corpos os deixa como renovados". E com esse pensamento José retomou o diálogo com Maria e inaugura um dos mais proveitosos ditados da sabedoria antiga: "Lavou, 'tá novo!"

_ Pára de chorar, mulher! Não pretendo desistir de ti ainda!
_ Ó, José, me perdoaste. Eu não devia ter ido comer Romãs com...
_ Cala-te que não quero saber de nada.
_ Mas o pai deste filho é...
José faz um gesto brusco para que Maria se cale e afirma categoricamente.
_ É o Espírito Santo e acabou, me entendeste? Esse povo ocioso e mexeriqueiro anda a falar demais. Serás apedrejada com certeza pelas invejosas de Nazaré. Dize ao povo e ao menino como te digo agora.
_ Isto não irá afetar o garoto, José?
_ Como eu te digo agora repetirás para todo o sempre. Promete.

Mais tarde, na taberna, José encontra Jacó e grita, na esperança que todos ali o ouçam:

_ Jacó, Jacó!Está tudo esclarecido e irei desposar a filha de Ana.
_ Como, José? Acaso queres me dizer que Maria não está grávida de outro? Todos saberão ao contar os meses que estás mentindo.
_ Acalma-te, homem. É do Espírito Santo. Do Espírito Santo, ouviram? Um anjo em sonho me acalmou o coração.

Jacó logo percebeu que José além de um tremendo carpinteiro era também um tremendo cara de pau.


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03 Maio 2009

Pérolas dos Porcos 



A gripe dos porcos e a mentira dos homens




Por Mauro Santayana

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.

Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país, nem às suas leis - somente às leis do país de origem.

O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco..

Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.

As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.

O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.
Data: 01/05/09 06:10

P.S.: Valeu pelo e-mail Laurent

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30 Abril 2009

Malvados Rolls 



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24 Abril 2009

Fale com o Homem 



A Invocação


- Tem certeza que isso vai dar certo?
- Claro que vai dar certo, seu covarde.
- Mas... eu sei lá... parece meio patético esse negócio de invocação. A sala 'tá uma bagunça e o cheiro do chá...(sniff!)...(bleerrg!)
- ...(!!!)
- Porra! eu nunca vi nada assim em qualquer filme, livro, monografia Rosacruz ou programa do Discovery Channel. Nem em roteiro de animê uma invocação poderia ser tão estranha quanto esta.
- Mas você ouviu o que o mestre disse. Entramos no site do "cara" e agora devemos esperar suas instruções finais. Para isso, devemos primeiramente deixar nossos corpos aptos a receber "o conhecimento da verdade".
- (...?)Você deve estar chapado e eu acompanhando essa sua doidera. Estamos há dois dias aqui dentro desse apartamento seguindo a resposta de um e-mail...

Em uníssono:

- ... enviado por Mephystopheles@danacaoeterna.com.

Risadas.
Marcos vai até a geladeira pegar o elixir de purgação do bom senso, nome muito bem dado por Mephystopheles a garrafa de uísque dose anos. Seguindo as instruções do e-mail as doses deveriam ser tomadas sem gelo pelo menos de meia em meia hora. Marcos fazia isso de dez em dez minutos.

- Eu tenho que admitir que o cara mandou bem na resposta.
- Mandou bem? Cara, antes do nosso acesso a internet ter caído eu tentei acessar o site, rastrear o domínio, qualquer coisa...
- E?
- E nada, meu irmão! - Põe aí uma dose pra mim também.- É como se nunca tivesse existido.
- Só porque não está no Google não existe. Grande merda você disse.
- Sei lá, comecei a levar mais a sério essa alucinação. Tudo o que a gente queria era um atalho para o mundo da fama. Aí, sem avisar ninguém, viemos parar nessa cobertura onde as paredes estão cobertas de pentagramas depois de aquele louco do Lucien nos indicou o site do pacto e começamos a seguir as instruções...
- Pentagramas e algumas figuras do Topo Giggio. Não viaja, Jorge. É alguma mega pegadinha.
- Toppo Giggio?
- Acho que tem umas duas do Toppo, uma do Wally e duas do Harry Potter.
- Enfim, viemos para nesse lugar louco onde não nos perguntaram por nada. Caralhos! Você quer mesmo ir até o fim?
- Mas a gente topou fazer isso juntos, né? Vamos até o final.
- Topou porque você é um junkie safado e eu também.
Mais risadas.
- Cara, eu nunca tinha feito uma doidera dessas. Ingeri tantas substâncias alucinógenas que vai ser difícil sair daqui sem nenhum revertério. De repente, chega um maluco aqui com um pacote contendo um bolo e vários ingredientes ritualísticos...
- O grande Zepi e seu arsenal de doideras.
- E eu crente que o bolo era pro café da manhã.
- E por falar no bolo... Já acabou?
- Porra! Acabou, né! Você é insano.
- (...)
- O chá está quase pronto e as sacerdotisas irão chegar a qualquer momento.
- Devemos colocar o CD e misturar o chá ao absinto logo... Faz você que o Mezcal não me caiu bem.
Assim que acabaram de preparar os dois litros obrigatórios do "Pipocamente" a campainha tocou.
Jorge e Marcos engoliram rapidamente as pílulas azuis do "arsenal" de Zepi e comeram as hóstias doces conforme as instruções de Mephystopheles.
As sacerdotisas eram um bando de mulheres, pelo menos umas vinte, vestidas com roupas ousadas e, como direi, voluptuosamente bem servidas. Carregavam dois narguilês ornados com desenhos de bandas de rock e pitavam cigarrilhas com cheiro de baunilha.
Diante do apavorado olhar dos "ritualistas" dirigiram-se ao aparelho de som, apagaram as luzes, acenderam tochas e ligaram um estroboscópio.
- Você está vendo isso, Jorge?... Jorge? Fala alguma coisa, maluco.
- (...)
- Você está vendo esse bando de malucas dançando? E dançando Pig Destroyer?
- Eu acho que as "paradas" já estão "batendo", Marcão.

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10 Abril 2009

Addendum 

Esta é uma segunda parte do Zeitgeist.
Ao contrário do primeiro, este é ativista e propositivo.

Julguem por si mesmos

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09 Abril 2009

Zeitgeist 




Para os que não viram ainda e para alegrar aos que já o viram.

Há tempos escrevi uma resenha num site sobre o filme:

It is quite easy to think that our society lives in a world where the information is free.What most of people don't realize is the fact that you have to make the right questions BEFORE getting the answers. So, the information is not that free as we wanted it to be. Only an inquiring mind (with skeptical proficiency, I'd say) will be able to obtain a larger view of the main picture.Zeitgeist is, as a documentary, something that approaches to Michael Moore's style: Conspiracy I saw and you were not able to say so until I told you what really goes on.And it was sucessful in its purpose because it shows us that we don't have the information to refute what they say. And what they say? They say we are stupid and ruled by few. Why? Because we don't have information. They say war serves to secret societies formed by nazi-bankers that imploded the World Trade Center and killed JFK.And I say : why not? It fits. It works. I buy it.But what will I do with this information? Did I asked for it? Will it make me happier, more productive, healthier? I will run for president and change the world's black fate, shall I?This kind of formula with no propositive idea is not new. We saw the Protocols of Zion used that way.And the truth is only one at all:The only problem is that people just don't care...And it is quite clear to everyone of us around the Globe.Americans don't even vote anymore.With a good argument you can prove whatever you want. Especially when you are the only one who talks. The order, the system, whatever, is an ideology more powerful and subtle than a master plan of evil masons. Wake up you all and make the questions by yourselves. The point is clear, "who controls the past now controls the future, who controls the present now controls the past."The truth is outside ... ... of the television, the newspapers and even the internet.

Pakkatto

PS> Sorry for the bad English, I am from Brasil (we wrote with an "S").

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22 Fevereiro 2009

Malvados Rocks 

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30 Novembro 2008

The Dears 

Um grande achado. Belas melodias, um vocal melancólico, letras instigantes e uma formação inesperada de teclados e violões.
Você vai lembrar de todas as influências indies. Eles assumem esse título e por mim tudo bem. O curioso é me esforçar para lembrar de alguma banda que tenha soado parecido e não lembrar de ninguém. Talvez porque eles sejam originais mesmo ou meu cérebro se recusa a só lembrar do Joy Division quando os ouço. Joy Division é viagem de minha cabeça.
Sinceramente, eu não estou afim de discorrer muito sobre o que vcs poderão conferir por si.
Eis a minha favorita, Money Babies, do último álbum Missiles.





Our money is elastic. Our money is elastic. Gotta get milk for the baby and our money is elastic. Decapitative laughter is keeping us alive. Cavalcades of losers, losing their minds. Hoping for disaster. Settin' off alarms. Amid all of the deranged. Amid all the charmed. Do you remember that time when we thought we were gonna die? Well, baby nothing much has changed. And yet they haven't been the same since at all. Our money is elastic. Our money is elastic. Gotta get milk for the baby. Gotta get milk for the baby.

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10 Novembro 2008

Quando decretares a derrota 

Quando o medo de sair a rua for uma constante

Quando tiveres que vender tua alma para almoçares

Quando desistires do que é o teu direito

A injustiça confundir-se-á com o egocentrismo

Invejarás as pessoas de coragem por seus valores

Teus olhos baixos perderão a oportunidade

de mandar a merda

os filhos da puta

que já se venderam

Quando enfim decretares a derrota

em outro merda

transformado estarás

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15 Outubro 2008

Uma história do Diabo 2 

Um conto da Guerra Infernal por Raul Kuk




Capítulo Segundo:
Tristes Asas do Destino

Os portões do Elíseo ainda eram exatamente como Estrela da Manhã se lembrava. Fulgurantes e majestosos, em toda sua glória. Yeshua HaMashiach veio recebê-los:
- Rafael! Este é...
- Eu sei quem ele é, Yeshua. Nós temos uma audiência com o Pai.
- Mas... Isso é... Impossível
- Não comigo aqui. Eu vou levar Estrela da Manhã até o Pai, se você não tiver mais nada a nos dizer.
- Continua o mesmo, Yeshua... Contestador até das coisas que não lhe dizem respeito...
- Assim como você, Estrela da Manhã. Se bem me lembro, foi sobre isso que conversamos no deserto.
- Sim. Passei quarenta dias tentando convencê-lo de que a humanidade não valia à pena. E aqui estou eu, lutando por ela!
- Mas... Estrela da Manhã, eu nunca tive a chance de lhe dizer... Mas após a crucificação... Eu cheguei a pensar que você estivesse certo. Que a humanidade não vale à pena.
- Não era isso que eu estava tentando lhe dizer no deserto, Yeshua.
- Não? Você tentou me convencer a não morrer por eles!
- Eu tentei te convencer a não morrer. A natureza deles, o que eles iam fazer... Você descobriria mais cedo ou mais tarde. Mas, após quarenta dias no deserto, sem comida ou água, eu não estava lá para lhe oferecer os “reinos da Terra”. Eu queria lhe dar a Verdade. Sobre o Criador. Sobre você e sobre mim...
- E o que é a Verdade?
- Você decidiu morrer pela humanidade. Quis se tornar o mártir que libertaria a todos. A profecia encarnada. Mas o peso foi demais até para você. A Verdade não é a cruz, não é o sacrifício no Calvário ou sua “ressurreição”. Eu quis lhe falar sobre um Pai que pune seus filhos. Eu lhe mostrei o mundo. Lembra o que você me disse? “Siga-me...”
- “...e conhecerás a Verdade”. Eu sei o que disse, Estrela da Manhã. O que isso tem a ver com...
- Você me tentou, Yeshua. Ofereceu Amor e Redenção, mas eu sabia que isso não existia. Me ofereceu um lugar ao seu lado quando o mundo mudasse por seu sacrifício. Em milênios, Yeshua, você foi o primeiro que me fez respeitar a espécie humana. Mas, quando Pilatos te perguntou a Verdade, você não soube responder.
- Responda-me agora, Estrela da Manhã. O que é a Verdade?
- Você não precisava ter se sacrificado, Yeshua. Você conhecia rituais da cabala que os outros rabinos não o conheciam. Não foi Judas quem o traiu, mas os outros rabinos, com inveja de alguém que conhecia as escrituras melhor do que ele. Judas foi um fantoche. A Verdade morreu com você. A mensagem que você estava espalhando morreu.
- Não, ela não morreu! A humanidade ainda se lembra! As pessoas ainda...
- Se o que você diz é verdade, Yeshua, então por que eu voltei ao Elíseo? Rafael e Estrela da Manhã seguiram em frente, enquanto um aturdido Yeshua refletia sobre dois mil anos de mentiras e manipulações. Diante da sala do trono do Criador, estava Miguel.
- Alto! Rafael, o que pensa que está fazendo!?
- Tenho direito a uma audiência com meu Pai, meu irmão.
- Sim, mas essa víbora traiçoeira...
- Meça suas palavras, Miguel. Nosso irmão está em pleno gozo de seus direitos. Ele está comigo.
- Como quiser, Rafael. Como quiser...
- Ainda esperando o Armagedon, Miguel?
- Eu ainda não esqueci tuas afrontas, Estrela da Manhã.
- O momento está próximo, mas não nos encontraremos como inimigos. Naquele instante, Gabriel chegou.
- O que está acontecendo aqui?
- Vim usufruir de meus direitos, Gabriel.
- Que direitos? Você foi banido!
- Mas mesmo spawns foram conduzidos até aqui. Se não estou enganado, tua protegida Ângela, pessoalmente, trouxe um deles aqui...
- Não me provoque, Estrela da Manhã...
- Já chega! – interrompeu Rafael. – Abra a porta, Miguel. Nós vamos entrar!
- Nós também iremos – disse Gabriel.
- Como queiram... O arcanjo Miguel abriu a porta da sala do Trono de Deus. O que eles viram, mudaria o rumo da Criação para todo o sempre. Após séculos de reclusão, os Primordiais, os primeiros anjos de Deus, finalmente estavam em frente ao Pai. Gabriel começou a chorar. Rafael se escorou em uma parede, vomitando. Miguel gritava contra Estrela da Manhã, que estava em silêncio. Sentado no trono, havia apenas um esqueleto. Por isso Deus mantivera o silêncio por tanto tempo. O Criador estava morto. Nada mais restava dele.
- É culpa sua, desgraçado! É culpa sua! Você é incapaz de derramar uma lágrima, não é?
- Miguel...
- Como ousa colocar seus pés aqui novamente, seu verme?
- Miguel...
- Por que você voltou?
- Miguel... ele era meu pai também.
Lúcifer e Miguel se abraçaram e choraram juntos.
Horas mais tarde, os Primordiais estavam reunidos ao redor do trono.
- O que faremos? – perguntou Rafael.
- A tradição diz que o mais velho deve assumir o trono. – disse Rafael. – Com isso, Estrela da Manhã é a escolha natural para...
- Um momento! Não foi para isso que eu vim aqui! Eu quero deter Mefisto, Neron, Malebólgia e Hela e ir embora! Eu queria minha antiga posição de volta, mas não dessa maneira!
- Se não cumprirmos a tradição, tudo estará consumado, meu irmão. O trono é seu. Você aceita? - Mas eu...
- Admita, Lúcifer... Você sempre quis isso... – cutucou Miguel.
- Eu queria que as coisas fossem diferentes, mas jamais conspirei contra o Pai. Eu não posso fazer isso.
- O que o impede? O orgulho?
- Estrela da Manhã está certo. Sua crueldade fatalmente destruiria a Criação.
- A menos que... - “A menos que” o quê, Gabriel?
- A menos que Rafael fique ao lado dele, como conselheiro.
- Eu? Conselheiro de Estrela da Manhã?
- Sim, por que não? Não foi você o responsável pelo retorno dele ao Elíseo? O que você tem a dizer, Estrela da Manhã?
- Há coisas grandes em andamento. Não posso assumir de onde o Pai parou. Se eu ficar no Elíseo, outras entidades se voltarão contra nós. Velhos inimigos. Vão achar que, com a morte do Pai, nós estamos enfraquecidos.
- Eles respeitam você, Estrela da Manhã. Mais do que jamais respeitaram ao Pai.
- Bobagem. Eles me temiam porque eu sempre interferi em seus negócios. Até Odin me deve favores.
- Sim. Essa é a diferença – disse Miguel. – Você sempre se envolveu em negócios alheios. O Pai, não. Eles não vão se meter com você, agora que o trono é seu.
- É a isso que tudo se resume? Eu assumo o trono por questões políticas? Apenas por que outras entidades terão medo de mim?
- Não, Estrela da Manhã. O medo nada significa. Mas porque você conhece cada detalhe de tudo que se move sob o Céu. Rafael, Gabriel e eu não sabemos nada mais do que ficar aqui. Jamais estivemos em Valhalla ou no Inferno ou no Olimpo. Você é o diplomata que pode conter essa guerra e impor respeito sobre os outros.
- Ele tem razão, Estrela da Manhã – disse Gabriel.
- Deixem Rafael e eu a sós – falou o Caído. – Eu preciso decidir.
Gabriel e Miguel saíram da sala do trono, onde o esqueleto de Deus jazia, envolto em um lençol.
- O que faremos, Estrela da Manhã?
- Aceitaremos. Não temos muita escolha.
- Como não?
- O Criador está morto, Rafael. Isso não soa muito suspeito para você? Ele sempre nos mandou fazer seus serviços. Sodoma e Gomorra, a virgem de Nazaré, e tudo que escondemos sob as águas do Mar Morto. E agora isso. Ele sabia que o dia do juízo estava próximo e nos deixou aqui, no controle.
- Você acha que ele não está morto realmente?
O que eu acho, eu pretendo descobrir, mas não hoje. Primeiro, precisamos nos preparar...
- É tudo um jogo para você, não é? Você finalmente está no poder, o Pai está morto e temos que nos submeter às suas vontades!
- Rafael... Lembra do que eu lhe disse, quando o Criador me expulsou? Eu agradeci seu afeto e disse: “Um pai não pode punir o filho para sempre. Tampouco posso condena-lo por isso.” Rafael se calou. No fundo, sabia que não havia outra escolha mesmo. Gabriel e Miguel estavam certos. A Criação dependia de alguém no trono, alguém que traria equilíbrio aos vários ramos de poder criados abaixo. Um mediador para questões que envolvessem Vida, Morte e Castigo. Estrela da Manhã, certamente, faria disso um espetáculo de malícia. Mas com Rafael a seu lado, seus instintos cruéis poderiam ser domados. Havia uma chance de controlar o status quo novamente.
- O que você me diz, Rafael? Vamos condenar o mundo... ou salva-lo?
- Devemos assumir o poder para salva-lo?
- Isso é apenas um ângulo para essa questão. Não vamos assumir o poder, apenas organiza-lo entre os Primordiais.
- Onde está o Pai, Estrela da Manhã? Ele saberia o que fazer...
- Não, não saberia. Ele me expulsou, lembra?
- Pare de dizer isso!
- O que espera que eu diga? Que Ele estava certo? Eu só queria voltar pra casa, Rafael! Mas agora há uma guerra abaixo de nós e eu não tenho tempo para seus lamentos!
- Está bem – disse um resignado Rafael. – Vai ser do seu jeito, ao menos por enquanto. Quando essa guerra acabar, conversaremos à respeito.
- Ótimo. Obrigado, meu irmão. E lembre-se que eu nunca quis o poder. Eu só quis consertar as coisas entre eu e Ele.
- Eu sei. Me desculpe, mas jamais vou me acostumar com isso. Os preparativos para o funeral começariam em instantes. O segredo seria guardado entre os Primordiais.


Epílogo:


Longe dali, nas savanas da África do Sul, um homem procurava uma sombra para observar as zebras que se alimentavam.
- Há lugares mais seguros ao sul, senhor. – disse um nativo.
- Está tudo bem, meu filho. Eu quero vê-las de perto.
- Elas são presa fácil para os leões aqui, e o senhor também.
- Não se preocupe. Eles não vão me incomodar.
- O senhor fala como se pudesse doma-los!
- Eu ensinei meus filhos a repartirem o poder. Posso ensinar os leões também.
- O senhor é algum tipo de político ou diplomata?
- Eu fui. Fui um líder. Mas antes disso, fui um pai que cometeu um erro e demorou muito tempo para descobrir como corrigi-lo. Hoje, finalmente, tudo está em seu devido lugar. Assim na Terra, como no Céu.
- Espero que os leões sejam compreensivos como o senhor! O senhor parece ser um pai amoroso e justo.
- Eu me esforço, meu filho. Eu me esforço.

08 Outubro 2008

Uma história do Diabo 




Um conto da Guerra Infernal por Raul Kuk

SANTOS NO INFERNO


Seis meses atrás...

O tempo continuava sua marcha, inexorável, rumo ao fim. Os sinais eram claros. Nada de rios de negros, bolas de fogo ou chuvas de sangue. Era tarde demais para essas alegorias bizarras do juízo final. Lúcifer sabia muito bem o que estava porvir.

Havia um jogo em andamento, desde o princípio dos tempos. Uma batalha entre o bem e o mal, sombras e luz, paixão e virtude. Agora, finalmente essa batalha faria vítimas.

Ele sabia a contagem de corpos.

A garçonete se aproximou de Estrela da Manhã, trazendo a conta:

- São três dólares e cinqüenta centavos, senhor.

- Aqui está. Me diga, o padre Carey ainda mora aqui?

- Desculpe... Padre Carey?

- Sim, ele se afastou da ordem em 84.

- Você deve estar falando do velho Carey, só pode. Não sabia que ele tinha sido padre. Ele mora num quarto alugado, nos fundos da casa dos Weston. O senhor é parente dele?

- Não. Meus parentes estão condenados à morte pela espada.

Estrela da Manhã saiu, deixando uma atônita garçonete com vontade de ir rezar no banheiro.

A casa dos Weston era um velho casarão, daqueles que você só encontra no Louisiana. Mas alli era Detroit. Olhar para o casarão era como ter um dèja-vu. O anjo caído aproximou-se do portão e, não vendo ninguém, entrou. Um rapaz veio a seu encontro, interpelando-o:

- Peraí, amigo! Aonde pensa que vai?

- Eu vou falar com o padre Carey, me dê licença.

- Licença o caralho! Não pense que pode ir entrando assim na casa dos outros, não! Por que você não se anunciou? Não viu a campainha?

- Meu jovem, de onde eu venho, não preciso anunciar minha chegada pois ela é precedida de choro e ranger de dentes. Saia do meu caminho, sim?

- DEIXE-O! – gritou o velho padre Carey de uma janela na edícula dos fundos. – Ele é um... velho amigo, Chris. Deixe-o entrar!

Lúcifer passa pelo dono do casarão sem esboçar nenhuma expressão de vitória. Mas, assim que sua sombra toca o ombro do jovem, ele sente um profundo mal-estar, uma saudade das coisas que tem e medo de jamais vê-las novamente. Ele entrou em casa apressado, abraçou um velho baú com recordações da esposa que viajava e chorou copiosamente, implorando aos céus para que ela chegasse bem em casa.

Estrela da Manhã entrou na edícula, onde o padre Carey o esperava:

- Como vai, Satã? Sente-se aqui, sim?

- Não me chame assim, padre. Esse nome supersticioso me dá náuseas.

- E não me chame de padre. Eu não sou mais padre, você sabe disso.

- Sim, mas não entendi o por quê. Saudável, lúcido...

- Que pergunta idiota! Passei a vida toda pregando para que as pessoas se afastassem do caminho do mal, até que conheci o mal e nos tornamos amigos!

- Isso devia ser motivo suficiente para que o senhor continuasse pregando.

- Contra o quê? Eu vi o mal. Vi violência nas ruas e no coração das pessoas, vi sangue inocente sendo derramado, ouvi confissões de velhas senhoras e homens de reputação que fariam até você corar. Eu vi o mal, reconheço o mal e sei que você não é a essência do mal. Então, contra o que eu vou pregar?

- Por que você se pergunta “contra o que pregar” ao invés de se perguntar “a favor do que pregar”? Você não deveria valorizar a fé e a redenção ao invés do medo?

- Está vendo? Esse é o maior mal que você pode fazer. Questionar. Foi por isso que você foi expulso do Paraíso num primeiro momento, Satã. Você me mostrou um Deus incapaz de perdoar um filho que errou, um pai que pune seu primogênito com a danação eterna. Não é esse o Deus em que eu acreditava. O Deus em que eu acreditava teria perdoado você ao ver seu arrependimento. Teria acolhido você de volta, apesar de sua arrogância e prepotência.

- É estranho alguém que entenda isso com tanta clareza...

- Minha alma é sua, Satã?

- Nah! O que eu faria com ela? Estou cheio desse jogo.

- E o que você quer, afinal?

- Quero meu emprego de volta.

O padre se calou. Como dizer ao diabo que isso era impossível, se ele mesmo já havia desistido da redenção?

- Não é por redenção, padre. – disse Estrela da Manhã, como se pudesse ler os pensamentos do padre. – É por direito. Ao longo de eras, eu O tenho visto tomar suas decisões e armar seus jogos, sem sequer me levar em consideração. Eu fui banido, em todos os sentidos. Minha ausência não é sentida, assim como minha presença é desconsiderada. É tudo um grande erro, ele não devia ter feito isso, não devia! O preço a ser pago por uma pergunta, uma simples e maldita pergunta, foi uma eternidade de rejeição! Eu estou farto desse jogo!

- Satã – interrompeu o padre Carey – Qual foi a pergunta?

Estrela da Manhã hesitou em responder. Jamais havia contado a alguém o que tinha dito ao Criador que causara sua expulsão do Paraíso. A idéia de que almas mortais tivessem acesso a esse conhecimento poderia arriscar toda a delicada ordem celestial. Mas... Pensando bem... O fim estava próximo, mesmo...

- Eu perguntei se as regras de conduta moral criadas para os homens mortais valiam para ele.

- E?

- E só. Ele me expulsou do Elíseo, para “provar que as regras eram dele”.

- A que você se referia quando mencionou “regras de conduta moral”?

- Ele os ordenou que perdoassem. Ele jamais os perdoa. Vocês erram e são arremessados no inferno. Que pai enviaria o filho, quando esse cometesse um erro, a um quarto escuro, onde ele seria surrado todos os dias, até o fim dos tempos? Nenhum pai mortal, eu garanto. Mas Ele parece não se importar com o tempo.

- Satã, Ele ao menos respondeu sua pergunta?

- Não.

- E você jamais pensou sobre isso?

- Caminhar entre vocês, desprovido da minha condição, é resposta mais que suficiente.

- Você nos odeia tanto assim?

- Não, padre. Eu não odeio vocês. Eu não odeio ninguém, nem o Criador que me puniu, nem os meus irmãos que me abandonaram, nem Morpheus ou Constantine, que me desafiaram... Nem Mefisto ou Neron, com quem dividi meu feudo... O que fiz, não fiz por ódio ou ressentimento. Foi porque eu ainda tinha uma pergunta, uma única pergunta cuja resposta jamais me foi mostrada.

- E qual é?

- Como as coisas seriam se eu estivesse em minha antiga posição.

- Isso... Isso é terrível. E irônico. E engraçado. Um padre discutindo filosofia e teologia com o diabo... Chega a ser patético! Hahahaha! Do que estamos falando afinal? Eu deveria odiar você.

- Mas não pode.

- Eu posso. E odeio você, Satã, e tudo que você representa.

- Que grande mentira. Acorde, padre! Eu sou mais importante para você e para todos os outros fiéis do mundo, mais importante que o próprio Deus! Eu sou a razão de sua vocação, eu sou a força que o motivou, amedrontou e acolheu! Você me ama através do espelho, mas é incapaz de admitir!

- Essa é a teoria mais idiota que já ouvi...

- Acha mesmo, padre? Então, me responda... Quando você tinha dúvidas... Quando sua fé fraquejava... Qual era seu maior medo? O aprisionamento eterno em meu reino, o “lago de enxofre sulfuroso”, ou descobrir as respostas para as perguntas fundamentais que eu havia plantado? Como “qual a razão da fé”, “onde acabamos”, “o que motiva Deus”?

O padre se calou. Realmente, a única coisa mais assustadora que o próprio diabo eram suas perguntas. As respostas eram uma questão de fé, e a fé poderia nubla-las. Mas nada causava maior tormento do que ter perguntas que não deviam ser respondidas. Questionamentos que não podiam ser partilhados. Esse era o verdadeiro inferno.

A fé eternamente solitária e fadada a questões.

- Saia daqui, Satã. Me deixe em paz.

- Como quiser, padre.

Estrela da Manhã continuou vagando, solitário, até um parque no centro de Detroit. Não era muito arborizado, mas o lembrava de lugares que ele havia conhecido. Lugares que ele havia visto no princípio dos tempos, antes da humanidade.

Antes da questão.

Ele precisava de respostas.

A hora finalmente havia chegado.

- Rafael – disse Estrela da Manhã. – Rafael, eu preciso falar com você.

O ambiente foi tomado por um zumbido familiar. Naquele parque, ninguém seria capaz de ver a chegada de Rafael, um dos primeiros anjos, irmão de Lúcifer. A conversa que se seguiu foi nublada aos olhos humanos por um véu. Rafael apareceu em todo seu esplendor, mas abriu mão das honrarias, assumindo aparência de carne mortal. O véu se desfez. Dois homens conversavam em um banco do parque, apenas isso.

- Como vai, meu irmão?

- Nós precisamos conversar, Rafael.

- O que aconteceu?

- Você sabe. A hora chegou. Eu estou farto disto. Gabriel não vai me ouvir, Miguel não vai me ouvir. Minha única chance de impedir que o Elíseo caia dentro do Inferno é você.

- Meu irmão, os últimos acontecimentos...

- Os últimos acontecimentos significam que até mesmo os deuses podem morrer! Neron e Mefisto estão engalfinhados em uma guerra para mostrar quem pode mais, Hela, Loki e os asgardianos não vão ficar apenas olhando! Temos anjos e demônios e spawns se digladiando! Você sabe o que isso significa? Quanto tempo resta até que essa guerra chegue ao Elíseo e tenhamos que libertar o Santo? Se aquele desgraçado caminhar sobre a Terra novamente, nossa próxima conversa será diante do cano das armas dele. O que vai ser, Rafael? Que tal me ouvir?

E Rafael preferiu ouvir.

Rafael era o mais jovem dos Primordiais. Quando o mais velho, Lúcifer, se rebelou, Rafael foi o único a lhe dizer adeus. Os outros dois, Gabriel e Miguel, tiveram medo de que o Pai visse isso como uma afronta e não se despediram do irmão, nem dos outros caídos.

Mas Rafael era quase ingênuo em sua pureza.

Jamais entendeu porque o irmão estava sendo banido.

Jamais ouviu a história toda.

Até agora.

Lúcifer contou sua indignação com a maneira como as decisões eram tomadas. Contou sobre o dia em que decidiu perguntar ao Pai o que estava errado com o mundo. O que estava errado com Ele. E, à medida que a narrativa continuava, Rafael descobria que os outros Primordiais haviam dado as costas a Lúcifer, num momento em que o apoio da família era a única coisa que poderia salva-lo. Mas, mesmo depois de milênios, talvez não fosse tarde demais. Talvez se o Pai aceitasse ouvir um dos Primordiais em defesa de Estrela da Manhã, ele fosse aceito novamente no Elíseo. E pudesse deter a Guerra Infernal, antes que o Paraíso se tornasse apenas uma metáfora muito distante na mente da humanidade.

- Eu não posso. Nossos irmãos não nos deixarão entrar.

- Eu só vou conseguir com um salvo-conduto seu, Rafael. Não temos escolha.

- Mas e se...

- Você não teve medo antes, Rafael! Por que se esconder agora? Você não vai ser punido por me guiar ao Elíseo, já que muitos mortais caminham por lá, e até o Spawn!

- As circunstâncias diziam respeito ao julgamento de uma caçadora, não à uma audiência com o Pai!

- Sera que o Pai não ouve mais orações de seus filhos? É isso que você está me dizendo?

- Não deturpe minhas palavras, Estrela da Manhã!

- Não diga o que não sabe, Rafael. Apenas me leve até lá. As circunstâncias atuais dizem respeito ao fim de toda Criação. E eu posso deter o caos, mas preciso da autorização do Pai para erguer a mão contra os outros Caídos. Eu preciso voltar ao Elíseo.

Rafael analisou a situação. Guiar Estrela da Manhã ao Elíseo poderia significar uma punição ainda mais severa que a imposta a Lúcifer. Mas o que significaria a entrada de spawns, deuses e demônios no Elíseo? Um massacre? A libertação do Santo dos Assassinos? Quantos sobreviveriam a essa guerra, o que haveria para se comemorar após uma eventual vitória?

Haveria vitória?

Apenas se Lúcifer colocasse seu plano em prática: usar seu poder contra os cabeças dessa guerra, como Malebolgia. Mas precisava da autorização do Criador para punir quaisquer entidades, sob o risco de sofrer conseqüências desastrosas. Era necessário manter o equilíbrio.

- Está bem – disse Rafael. – Venha comigo. Vamos voltar para o Elíseo, Estrela da Manhã.

30 Abril 2008

A vida é para os vivos 



A vida é para os fortes
A vida é para os tenazes
A vida é para os inconformados
A vida é para os de boa sorte
A vida é para os audazes
A vida é para os apaixonados
A vida é para os vivos
Para os que vivem a vida
Que deve ser vivida

A vida é para os que vivem

A morte?

A morte sim
A morte
É para todos

E se, às vezes, me acusam de andar em círculos...
Acho melhor andar em longos círculos e ver o mundo
Do que ficar parado no mesmo lugar esperando um milagre

A vida é para os vivos
Que vivem a vida que pode ser vivida
Sem dar a estúpida desculpa
"Eu vivo a vida que posso"

Bom dia Boa tarde Boa noite
Sede abençoados
Que saudades de você
Vamos fazer um churrasco
Parabéns
Eu te amo

são apenas palavras?
não te evocam lembranças ou desejos?

a vida é para os que vivem
assim como este poema

Não me importa se você não sabe o quão doce o vinho pode ser
Ou quão quente o aguardente deixa a alma
Se não sentiu o toque da mulher amada na noite mais fria
ou saudade do amigo que nunca estará lá
Frio fome saudade e riqueza não lhe tornarão melhor
Nem como ser humano ou como poeta

Haverá sempre alguém sob o céu azul
Arrotando experiência de olhos fechados

é preciso coração para estar simultaneamente
No espaço tempo dos fatos
Sendo sincero com sua alma

E se o acusam de estar perdendo tempo
Você deve estar perdendo tempo cercado de pessoas que te acusam de algo
Ou em frente ao espelho
Preocupado em honrar compromissos que fez a si próprio no passado

Desperte

Este poema é para vocês que estão vivos
Para que continuem vivos
E vivam

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O som e o resto 

Faço uma ponta nesse filme. Pode crer.





Sinopse: Jahir é um baterista virtuoso que toca numa banda evangélica, um dia, depois de se indispor com o pastor da igreja onde costuma tocar, se vê na rua com seu instrumento e inicia assim uma jornada existencial rumo à sua música e ao seu espaço no mundo.

Direção: André Lavaquial
Co-Direção: Rodrigo Rueda
Roteiro: Aline Melo, Rita Toledo e André Lavaquial
Montagem: Juliana Cavalcanti
Direção de fotografia e câmera: André Lavaquial e Bruno Diel
Produção: Aline Melo, Rita Toledo e André Lavaquial
Assistência de produção: Helio Lambais
Som direto: Alan Caferro, Rafael da Costa, João Paulo Dias, Leonardo Villas-Boas
Atores: Jahir Soares, Leandro Zanardi, Rogério Bispo dos Santos, Solayne Lima, Marco Arruda, Henrique Silva Santos.

07 Abril 2008

A Carta "É Pilha" - Da série "Baralhinho do Momento" do site ANTIPROPAGANDA 



Você chega da boate cansado. Cansado das luzes estroboscópicas, do som alto, das mulheres bonitas, dos vetos completos e das danças corretas. Nada o ajudou em nada e mais uma vez sozinho, às 4:15 da manhã você está.

Seus amigos seguem pra casa, você entra no seu prédio, cumprimenta a portaria, entra no elevador social, aperta o cinco, percebe que o elevador social está desligado, sai do elevador social, entra no elevador de serviço, aperta o 5 e sobe junto com o conjunto. Badúúúúúúúú....

O elevador chega e a cortina abre. Cansaço forte, sua cama vai ser demais. Solidão, pra quem conhece, tem suas vantagens.

Mas quando você sai no corredor e pisa no chão, você sente mais do que chão, você sente água. Olha pra baixo, pisa de novo, splat, splat, é água mesmo, maluco. Que porra é essa, você xinga em pensamento de dúvida e enquanto caminha pro seu apartamento, você percebe que a água o persegue. E ao dobrar a mini-esquina do corredor, realiza, na surpresa, que a água que desce, e desce forte é sua! Está saindo do seu apartamento!

É pilha!

Você já adrenaliza o corpo, busca a chave no frenesi, enquanto a água jorra gostoso por baixo da porta da cozinha da sua casa. Você abre a porta na loucura e a água acumulada lambe a sua canela esvaziando a cozinha. Parece que uma piscina Tone rasgou na tua frente. Mas não é isso e você sabe. Você não tem uma piscina Tone, a alegria da garotada. E a realidade do momento não é de alegria.

E há dois tipos de problema neste mundo, minha gente: o problema tipo meu, e o problema tipo seu. E esse problema é tipo seu!

E sendo seu, você vai seguindo o fluxo, como aquelas expedições do globo repórter, em busca da nascente do rio 503 bloco 2. Você vai pelo barulho, passa por você um saco de bisnaguinha seven boys e você realiza que a situação é dramática. Você alcança a área de serviço se agarrando nas coisas e encontra a nascente do rio.

E a nascente do rio é seu pai, de cuecas, bêbado, tentando com o dedo indicador conter, quase que moralmente, porque não está fazendo a mínima diferença, uma enxurrada de água violenta que brota da parede sem parar, no lugar que até agora pouco era o tanque de lavar roupa!

É pilha!

E, amigo, a água que brota da parede, brota num volume, numa potência, que faz a caixa d'água do prédio borbulhar que nem filtro de galão. Bablug, Bablug, Bablug!!!

É pilha! É, é sério.

Teu pai, de dentro do chafariz em que se transformou a sua área de serviço, te reconhece e dá a notícia que você já sabe.

- Filhinho... deu merda.

Porra, claro que deu merda!

- Filhinho... bota o dedo aqui que teu pai vai resolver. Segura aqui essa peteca.

Teu pai tira o dedo do buraco e sai um jato tão forte que teu pai patina surf e cuca o tanque. E cuca forte! Você ajuda, os dois caem, é água pra cacete, teu pai levanta, você afoga, teu pai cai, você levanta e vira briga de palhaço a área de serviço. Meia hora de bobeira, abrindo espaguetti e você e teu pai conseguem levantar juntos, ao mesmo tempo e teu pai sai saindo, meio patinando, meio se apoiando, meio não entendendo porra nenhuma do que está acontecendo.

Você volta pro buraco mete o dedo, tentando fazer o melhor, mas é impossivel. Água é água e a água escapa por tudo quanto é lado. E você que estava cansando, pensando só na sua cama, agora está de pé matando água nos peitos, revezando de dedo no buraco, arriscando a saúde no frio e vendo o tempo passar nos litros e litros de água que se perdem na loucura.

Depois de meia hora, com a pele enrrugada, o dedo indicador azul, o médio paralisado, a camisa transparente e o pulmão assoviando você se pergunta: porra, cadê papai?!

Na busca pela verdade, você abandona o posto, o jato engrossa, a caixa d'água babluga e você mete pela cozinha. É água. Você invade a sala, é água. Rompe pelo corredor, é água. Passa pelo banheiro, é sua mãe sentada não entendendo nada. Você passa pelo escritório, é água. E quando você abre a porta do quarto do seu pai, vem o choque, o verdadeiro choque térmico:

Teu pai está deitado na cama, de cuecas, todo encharcado, dormindo. Dormindo de roncar.

Um grito ecoa forte, muito forte pelo edifício Eugênio de Alencar:

É a carta É Pilha fazendo BLAU!!!!!!

As luzes dos apartamentos se acendem, pessoas aparecem nas janelas, teu pai levanta só a cabeça e no silêncio depois da corneta, todos ouvem juntos, intrigados, um som mais do que misterioso:

BABLUG!


Do genial site ANTIPROPAGANDA. O link 'tá ali do lado, ó!

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