Uma Noite na Taverna

20 fevereiro 2004



Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.




Param e me perguntam
“Como vai essa força?”
E eu respondo automático o que querem ouvir
mesmo sentindo que essa “força” não vai
mesmo sabendo que essa “força” não vem
mais me socorrer
ou erguer o peso sobre meus ombros

Param-me e perguntam
“Como vai essa força?”
E, por fora, sorrio quando,
por dentro, indago:
“Há real necessidade em sermos fortes?”


Essa força minha não vai me ajudar
a vencer
a correnteza
e eu devo aprender a boiar sobre os fatos
como um corpo morto, resignado
que entra no ritmo das ondas que o arrastam
sem opção

“Como vai essa força?”
Paro e pergunto a mim mesmo
Surpreso, não me respondo,
temendo talvez constatar que ela não vai mesmo
E eu vou
à esmo
flutuando num calmo desespero em direção alguma
ou desconhecida
a que me levarem

Não é lágrima que escorre de meus olhos
apenas chove


(Henrique Santos)