Uma Noite na Taverna

13 janeiro 2005



Há poemas que resumem os dias. Hoje, quando a falta de humanidade dos seres humanos se abateu como um meteoro em meu plexo solar, entoei mentalmente este poema, como uma oração. E flutuei mais uma vez sobre a mediocridade, a lama que me espera, a maldade em que me afogo. Flutei num calmo desespero, como diz a canção do Pink Floyd. Durante quanto tempo irei servir a mão vil do verdadeiro Anticristo, o capetalismo ganancioso e mascarado?
Como é doloroso trazer dentro de si a certeza de que não se pode errar em nossas escolhas e que a responsabilidade de tudo que nos acontece é só nossa. Como é doloroso ver que as pessoas mentem para si mesmas apenas para tornar confortável o espaço de suas gaiolas. Abrir os olhos e ver, responder o porquê de cada ato, respeitar os limites de cada alma, comunicar a natureza de suas convicções, estabelecer um ethos, procurar a harmonia : tudo isto é cada vez mais difícil para mim.
Hoje, enquanto orava em comunhão com Augusto dos Anjos e sentia o peso do que os mais simples insistem em chamar de cruel realidade, lembrei-me de Sócrates e Confúcio, de Spinoza e Drummond, de Zack de La Rocha e Jack Kerouac. Lembrei-me de Nietzche e de Foucault, de Humberto Eco e Ubaldo Ribeiro, de Chico Buarque e do meu amigo Davi. Lembrei-me de todos os amigos com que construo os fragmentos de minhas obras. Queria estar ao redor deles e com pessoas ao meu redor que me trouxessem esta mesma sintonia. A literatura me adoeceu.
Infelizmente, nem tudo é ressonância. As palavras vibram no ar e derrubam. Hoje preferi o silêncio, o ódio silencioso do não misturado a complacente compreensão de que não se atiram pérolas aos porcos. Preferi orar em silêncio com meus mestres. A literatura me adoeceu.
Foda-se o ser humano, caia logo meteoro.


VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!