Uma Noite na Taverna

18 fevereiro 2007



Meu mundo caiu ou só ficou offline?

Meu PC foi pro saco.
Sem alternativas para evitar o convívio com o mundo exterior fui obrigado a romper os umbrais de meu quarto e retomar a antiga arte de organizar as coisas reais, ainda não digitalizadas, que povoam o universo a nossa volta. Pensei em dedicar o tempo que me fôra dado pela ausência do computador ao estudo da música ou a leitura de um bom livro. Quem sabe iria mais à praia, viajaria...
Todos os devaneios interrompidos por aquela mãozinha batendo em meu peito acabando com o cochilo no sofá :
- Pô, pai. Não consigo ligar o jogo do carrinho. Quero ir ao shopping. O cachorro fugiu.
Sim, era ele, o protótipo do Pinball Wizard querendo diversão.
A torneira da pia estava pingando, a parede clamava por pintura e havia duzentas coisas precisando de reparos mas, era meu filho que me chamava. Só assim eu teria uma justificativa nobre para evitar o trabalho braçal doméstico.
Saiba que eu sempre achei que tiraria de letra esse lance de ser pai. Sabe os manuais que mencionei sobre criar crianças? Se você seguir a maior parte do que dizem para você fazer com elas certamente vai dar tudo certo. Tenho pelo menos uns quatro em casa. Eles só esquecem de dizer uma coisa muito difícil para os pais: O que eles têm que fazer com eles mesmos. Daí, obtemos estantes lotadas de manuais em várias línguas que não resolvem nada. Cuidar de crianças é um problema internacional. Principalmente das mais levadas e elétricas.
Houve recentemente uma campanha com o intuito de distribuir Ritalina às crianças consideradas hiperativas e com déficit de atenção. Fiquei assustado com esta perspectiva e seus possíveis desdobramentos. Seria o fim das crianças bagunceiras? O diagnóstico seria feito pelos professores e pais em conjunto com psicólogos. Cara, e se o problema da criança for pais hipoativos. Quem vai fazer este diagnóstico? Criar um vegetalzinho viciado em neurolépticos é mais fácil que dar atenção a seu filho. A maior parte do déficit de atenção não é dos filhos, é dos pais para com eles. Mais uma vez corporações se movem para utilizar esta questão universal a favor do lucro. Tsc, tsc...
Vem aquele bracinho batendo no ombro:
- Pai! Pô, pai, vamos no parque!
Melhor calar os devaneios, levantar do sofá e lavar a cara.
Pois bem, abracei esta minha nova missão de estreitar os laços com meu filho.
Nunca fui tanto ao cinema, comprei tantos Mc's Lanches Felizes, joguei fliperama e aluguei tantos desenhos. Crianças pedem tudo a todo momento e você ainda espera aquela gratidão quando dá uma das sessenta coisas que ela pediu? Ledo engano. Você vai se prometer não sair mais com ele depois da milésima pirraça. Vai descobrir que não são só os pais que não ouvem seus filhos depois de pedir ou explicar a ele algo por mais de cinco vezes. Vai ser doloroso levar porrada no saco no futebol, martelada de Chapolin ou ter que assistir Jackie Chan trinta vezes.
Mas há uma recompensa sem par: Descobrir que você ama o sorriso de uma criança.
E assim, sem o computador, pude ser feliz dando atenção e amor à família. Sabia que isso ficaria marcado para sempre no nosso coração e que nada poderia suplantar esses momentos que tivemos um com o outro.
Lá vem o braço de novo...
- Pô, pai, mais de uma semana sem o jogo do carro. Conserta isso logo.
E, para o bem de todos, o cara que me vendeu o PC apareceu no dia seguinte.