A diferença entre tragédia e catástrofe




Achei uma bala em meu quintal hoje. Uma bala que, por sorte, errou meu peito, errou minha família, meus vizinhos, as crianças que brincam na rua.
Moro afastado de confrontos entre bandidos, da Faixa de Gaza e do Iraque. Mesmo assim, a bala achou meu quintal. Pacífico quintal onde reflito sobre a guerra que paira sobre cada um de nós em todos os lugares.
O bandido que disparou a bala de fuzil não vai passar dos vinte e dois anos de idade. O policial que a disparou talvez nem chegue aos trinta vivo. E nós? Sobreviveremos com ou sem medo? Faremos passeatas? Exigiremos a pena capital? Condenaremos adolescentes à câmara de gás?
As balas voam em nossas cidades. Transformaram o Rio numa Palestina às avessas onde se luta por um território que nunca foi deles, de policiais ou de bandidos, mas por um território que é nosso.
Temos o direito de andar pelas ruas, de sair de casa à noite, de sentarmos tranqüilos em nossas casas e de flanar peripateticamente em nossos quintais, livres da ameaça de morte iminente, ainda que inesperada.
A diferença entre tragédia e catástrofe é simples. Tragédia é algo ruim que acontece mas que poderíamos evitar caso soubéssemos antes. Catástrofe é algo ruim que, mesmo que soubéssemos antes, não poderíamos ter evitado.
No país da troça e da piada pronta, onde há leis que não pegam, já foram dados muitos avisos.
"Serão necessários mais mil gols do Rei Pelé"*, será preciso um outro "Ai de ti, Copacabana", será o aviso de Brizola mais um sonho que se torna vão.
Esse é o país das tragédias. Um povo burro, com uma televisão burra. Porque a televisão não emburrece ninguém. Ela nasce burra, contaminada pelo desprezo das elites pelos verdadeiros problemas do Brazil. O problema não é o Iraque, não é Chavez, a taxa de juros ou mesmo a cota para os negros. O problema é a falta de caráter, os feudos criados em torno das autoridades públicas, o descaso com as comunidades pobres e com os trabalhadores. Mas nossos jornais não conseguem ver à frente. Não se vêem ou ouvem os que distoam dessa sinfonia de sandices. Por quê? Porque o português é a língua oficial de quem sabe ler e onde poucos podem falar. Um país analfabeto e com a comunicação monopolizada.
Acreditar no discurso enviesado que o Planalto propele e que a mídia repete, de que os culpados são os funcionários públicos, os universitários, os menores de rua e os fumantes de cannabis sativa? Fácil, não?
Talvez, idiossincraticamente, tenhamos o hábito de passar a bola, de não assumir nossa responsabilidade sobre nada. Idiossincraticamente, não entendemos o discurso imperativo, a pergunta direta. Idiossincraticamente, fazemos pouco das minorias e escondemos nosso racismo fazendo sexo pago com as mulatas bonitas da favela. Furamos as filas, pisamos na grama, tratamos mal quem trabalha para nos servir, sentimos inveja e nos preocupamos com a vida alheia.
Idiossincraticamente porra nenhuma.

Aprendemos isso. Aprendemos bem, com nossos governantes e patrões, que só é problema nosso a tragédia. E choramos a morte de inocentes, lotamos as Igrejas de Edir Perverso, votamos em ladrões assumidos e em viados enrustidos.
A escola não pode nos ensinar mais nada. Que desculpa podem nos dar para a não ampliação das vagas nas universidades? Que desculpa podem nos dar pela falta de ensino básico? Que desculpa podem nos dar pela bala que achei em meu quintal
Ah, Brasil, Brasil!
Esse é o país da catástrofe.


(*) Trecho da música de Diogo

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