Inocentes blasfêmias - Parte I




E o bom carpinteiro José chega a casa de seu amigo Jacó para contar-lhe cheio de alegria sobre o futuro casamento que arranjara para si.
Os pais das tradicionais famílias de Nazaré recusavam-se a aceitar que suas filhas pudessem desposá-lo. Não viam com bons olhos seu sucesso comercial com os romanos. "Puro preconceito! Coisa de invejosos implicantes!" - dizia José. Bem, o certo é que não havia ninguém que fizesse melhores banquinhos e cruzes naquela região. Não era sua culpa se as cruzes estavam mais na moda, ora bolas. Pra piorar, ele não era mais um garoto e, quanto mais velho ficava, mais difícil seria arranjar bom casamento.

_ Jacó, conheci uma linda mulher. Não passará uma semana e estaremos casados.
_ Bom para ti, José. E quem desposarás com tanta pressa?
_ A linda Maria, prima de Isabel.

Jacó empalidece.

_ Pelas barbas de Matusalém, José! Acaso não sabes?
_ De que falas, homem?
_ Tua futura esposa está grávida. O cuco andou visitando teu ninho.
_ Por Isaías, cala-te agora, Jacó, que irei saber com Maria se tem fundamento este murmúrio malicioso.
_ Corre então à sua casa antes que o ventre da bela Maria não possa mais me desmentir. Sinto por ti, José, mas se ouve sobre isso até mesmo na taberna.

José, deseperado com o escândalo, vai procurar sua noiva para tomar satisfação. Seu casamento dos sonhos arruinado.
Eu posso imaginar o babilônico perrengue passado pelo apaixonado carpinteiro.

_ Maria?
_ Sim, meu futuro esposo.
_ Maria! -diz José aos berros- Estão falando que tu me corneaste antes mesmo de casarmos. Acaso me queres conhecido por José, pai do cuco.

E Maria, aflita e desesperada, chora sem consolo.

Pois é, eu penso que José, como a maioria dos homens, não resistiria a uma mulher chorando.
Quero crer que neste ponto José, mesmo com raiva, consegue olhar para a linda Maria chorando e refletir sobre sua dificuldade em se casar. Olha para Maria que, mesmo grávida, é a mais linda jovem bem nascida de Nazaré e vislumbra seu possível arranjo futuro com uma velha viúva interesseira. Ele sabia que se largasse Maria agora confirmar-se-ia o falatório da gentalha e poderiam até apedrejá-la. Ver aquela pequena apedrejada sem que ele ao menos pudesse gozar de seus encantos? Não dava pra deixar isso acontecer. Pensou na idiotice que seria achar que um simples hímen, uma foda fora do casamento e uma gravidez clandestina poderiam separá-lo daquele pitéu. Iria perdoá-la pelo deslize pois: "A água, embora rara no deserto, ao banhar os corpos os deixa como renovados". E com esse pensamento José retomou o diálogo com Maria e inaugura um dos mais proveitosos ditados da sabedoria antiga: "Lavou, 'tá novo!"

_ Pára de chorar, mulher! Não pretendo desistir de ti ainda!
_ Ó, José, me perdoaste. Eu não devia ter ido comer Romãs com...
_ Cala-te que não quero saber de nada.
_ Mas o pai deste filho é...
José faz um gesto brusco para que Maria se cale e afirma categoricamente.
_ É o Espírito Santo e acabou, me entendeste? Esse povo ocioso e mexeriqueiro anda a falar demais. Serás apedrejada com certeza pelas invejosas de Nazaré. Dize ao povo e ao menino como te digo agora.
_ Isto não irá afetar o garoto, José?
_ Como eu te digo agora repetirás para todo o sempre. Promete.

Mais tarde, na taberna, José encontra Jacó e grita, na esperança que todos ali o ouçam:

_ Jacó, Jacó!Está tudo esclarecido e irei desposar a filha de Ana.
_ Como, José? Acaso queres me dizer que Maria não está grávida de outro? Todos saberão ao contar os meses que estás mentindo.
_ Acalma-te, homem. É do Espírito Santo. Do Espírito Santo, ouviram? Um anjo em sonho me acalmou o coração.

Jacó logo percebeu que José além de um tremendo carpinteiro era também um tremendo cara de pau.


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