Carta aos Poetas ou Pela Inevitável Desapropriação do Poema



Desvelar o significado,
Um algo congelado,
Maldição das coisas,
Extraindo palavras
em busca de uma essência.

Eu sei do vento.
Leio o poema:
Olhos brincando com nuvens.

Palavras não pertencem
A nada ou a ninguém.
O poema está livre
de qualquer conceito
tacanho e burguês
como o de propriedade.
Ele agora é meu, o leitor.

Um poema pode ser apenas
Papel rabiscado
E, logo, poema não é.
Só mais uma coisa
Desconectada e inerte
Mais infeliz que a carta dos suicidas.

Mas não te iludas.
Não foi o olhar do leitor
que tornou o poema
Insignificante
À poesia não importam
O sotaque soberbo de teus arrotos geniais
Tuas aflições tarja preta 
Ou pretensas insígnias hereditárias
Importa a alma,
A ponte.

Ainda que o poema nada aponte
E seja como a nuvem
Pluriforme 
Na essência do papel rabiscado
Tem que haver alma,
a consciência do movimento.

A poesia não é nuvem
É vento.

Respeite-me, poeta.

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