> CONVERSA ENTRE PAI E FILHO, ANTES DE ADORMECER, NUMA CIDADE
>NORTE-AMERICANA
>
> Filho: Pai, porque é que tivemos que atacar o Iraque?
>
> Pai: Porque eles tinham armas de destruição em massa, filho.
>
> F: Mas os inspetores não encontraram nenhuma arma de destruição
>em massa.
>
> P: Isso é porque os iraquianos as esconderam.
>
> F: E porque é que nós invadimos o Iraque?
>
> P: Bom, as invasões funcionam sempre melhor que as inspeções.
>
> F: Mas depois de os termos invadido, ainda não encontramos
>nenhuma arma...
>
> P: Isso é porque as armas estão muito bem escondidas. Mas
>haveremos de encontrar alguma coisa, provavelmente antes mesmo das
>próximas eleições.
>
> F: Para que é que o Iraque queria todas aquelas armas de
>destruição em massa?
>
> P: Para as usar numa guerra, claro.
>
> F: Estou confuso. Se eles tinham todas essas armas e planejavam
>usá-las numa guerra, então porque é que não usaram nenhuma quando os
>atacamos?
>
> P: Bem, obviamente não queriam que ninguém soubesse que eles
>tinham aquelas armas, por isso eles escolheram morrer aos milhares
>em vez de se defenderem.
>
> F: Isso não faz sentido. Porque é que eles haveriam de escolher
>morrer se tinham todas aquelas armas poderosas para lutar contra
>nós?
>
> P: É uma cultura diferente. Não é necessário fazer sentido.
>
> F: Pai, não sei o que é que você acha, mas não me parece que eles
> tivessem quaisquer daquelas armas que o nosso governo dizia que
>eles tinham.
>
> P: Bem, não interessa se eles tinham ou não aquelas armas. De
>qualquer modo nós tínhamos outra boa razão para os invadir.
>
> F: E qual era?
>
> P: Mesmo que o Iraque não tivesse armas de destruição em massa,
>Saddam Hussein era um cruel ditador, o que é outra boa razão para
>invadir um país.
>
> F: Porquê? O que é que um ditador cruel faz para que seja correto
>invadir o seu país?
>
> P: Bom, pelo menos uma coisa, ele torturava o seu próprio povo.
>
> F: Assim como fazem na China?
>
> P: Não compare a China com o Iraque. A China é um bom parceiro
>econômico, onde milhões de pessoas trabalham por salários de
>miséria, em condições miseráveis, para tornar as empresas
>norte-americanas mais ricas.
>
> F: Então, se um país deixa que o seu povo seja explorado para o
>lucrodas empresas americanas, é um bom país, mesmo se esse país
>tortura o povo?
>
> P: Certo.
>
> F: Porque é que o povo no Iraque era torturado?
>
> P: Por crimes políticos, principalmente, como criticar o governo.
>As pessoas que criticavam o governo no Iraque eram presas e
>torturadas.
>
> F: Não é isso o que também acontece na China?
>
> P: Já disse, a China é diferente.
>
> F: Qual é a diferença entre a China e o Iraque?
>
> P: É que o Itaque é governado pelo Partido Baas enquanto que a
>China é comunista.
>
> F: Você não tinha dito uma vez que os comunistas eram maus?
>
> P: Não, só os comunistas cubanos são maus.
>
> F: Porque é que os comunistas cubanos são maus?
>
> P: Porque as pessoas que criticam o governo em Cuba são presas e
>torturadas.
>
> F: Como no Iraque?
>
> P: Exatamente.
>
> F: E como na China, também?
>
> P: Já disse, a China é um bom parceiro econômico. Cuba, por outro
> lado, não é.
>
> F: Porque é que Cuba não é um bom parceiro econômico?
>
> P: No início dos anos 60, o nosso governo fez umas leis tornando
>ilegal o comércio com Cuba até que eles deixassem de ser comunistas
>e começassem a ser capitalistas como nós.
>
> F: Mas se nós acabássemos com essas leis, abríssemos o comércio
>com Cuba, e começássemos a fazer negócios com eles, isso não
>ajudaria os cubanos a tornarem-se capitalistas?
>
> P: Não se faça de esperto!
>
> F: Eu acho que não sou.
>
> P: Bom, de qualquer modo, também não há liberdade de religião em
>Cuba.
>
> F: Assim como na China?
>
> P: Já disse, deixa de falar mal da China. De qualquer maneira,
>Saddam Hussein chegou ao poder através de um golpe militar, por isso
>ele não era realmente um líder legítimo.
>
> F: O que é um golpe militar?
>
> P: É quando um general toma o poder pela força, em vez de
>eleições livres como nós temos nos Estados Unidos.
>
> F: O líder do Paquistão não chegou ao poder através de um golpe
>militar?
>
> P: Aah, sim, foi; mas o Paquistão é nosso amigo.
>
> F: Como é que o Paquistão é nosso amigo se o seu líder é
>ilegítimo?
>
> P: Eu nunca disse que o general Pervez Musharraf era ilegítimo.
>
> F: Mas você acabou de dizer que um general que chega ao poder
>pela força, derrubando o governo legítimo de uma nação, é um líder
>ilegítimo!
>
> P: Só Saddam Hussein. Pervez Musharraf é nosso amigo, porque ele
>nos ajudou a invadir o Afeganistão.
>
> F: E porque é que nós invadimos o Afeganistão?
>
> P: Por causa do que eles nos fizeram no 11 de setembro.
>
> F: O que é que o Afeganistão nos fez no 11 de setembro?
>
> P: Bem, em 11 de Setembro de 2001, dezenove homens, quinze dos
>quais da Arábia Saudita, desviaram quatro aviões e lançaram três
>contra edifícios, matando mais de 3.000 norte-americanos.
>
> F: E onde é que o Afeganistão entra nisso tudo?
>
> P: O Afeganistão foi onde esses homens maus foram treinados, sob
>o regime opressivo dos Talibãs.
>
> F: Os Talibãs não são aqueles maus radicais islâmicos que cortam
>as cabeças e as mãos das pessoas?
>
> P: Sim, são esses. Não só cortavam as cabeças e as mãos das
>pessoas, como também oprimiam as mulheres.
>
> F: Mas o governo Bush não deu aos Talibãs mais de
>US$40.000.000,00 em maio de 2001?
>
> P: Sim, mas esse dinheiro foi uma recompensa porque eles fizeram
>um bom trabalho na luta contra as drogas.
>
> F: Na luta contra as drogas?
>
> P: Sim, os Talibãs ajudaram a impedir as pessoas de cultivarem
>papoulas de ópio.
>
> F: Como é que eles fizeram tão bom trabalho?
>
> P: É simples. Se as pessoas fossem apanhadas cultivando papoulas
>de ópio, os Talibãs cortavam-lhes as mãos e as cabeças.
>
> F: Então, quando os Talibãs cortavam as cabeças e as mãos das
>pessoas que cultivavam flores, isso estava certo, mas não se eles
>cortavam as cabeças e as mãos por outras razões?
>
> P: Bom, nós achamos que é certo os radicais fundamentalistas
>islâmicos cortarem as mãos das pessoas por cultivarem flores, mas
>achamos cruel que eles cortem as mãos das pessoas por roubarem pão.
>
> F: Mas na Arábia Saudita eles também não cortam as mãos e as
>cabeças das pessoas?
>
> P: Isso é diferente. O Afeganistão era governado por um
>patriarcado tirânico que oprimia as mulheres e as obrigava a usar
>burqas sempre que elas estivessem em público, e as que não
>cumprissem tal ordem eram condenadas à morte por apedrejamento.
>
> F: Mas as mulheres na Arábia Saudita não têm também que usar
>burqas em público?
>
> P: Não, as mulheres sauditas simplesmente usam uma vestimenta
>islâmica tradicional.
>
> F: Qual é a diferença?
>
> P: A vestimenta islâmica tradicional usada pelas mulheres
>sauditas é uma roupa modesta, mas em moda, que cobre todo o corpo da
>mulher, exceto os olhos e os dedos. A burqa das afegãs, por outro
>lado, é um instrumento maligno da opressão patriarcal que cobre todo
>o corpo da mulher, exceto os olhos e os dedos.
>
> F: Parece-me a mesma coisa com um nome diferente.
>
> P: Você não vai querer comparar o Afeganistão com a Arábia
>Saudita. Os sauditas são nossos amigos.
>
> F: Mas você não disse que 15 dos 19 piratas do ar do 11 de
>setembro eram da Arábia Saudita?
>
> P: Sim, mas foram treinados no Afeganistão.
>
> F: Quem é que os treinou?
>
> P: Um homem chamado Osama Bin Laden.
>
> F: Ele era do Afeganistão?
>
> P: Aah, não, ele era também da Arábia Saudita. Mas era um homem
>mau, um homem muito mau.
>
> F: Se bem me lembro, ele já tinha sido nosso amigo.
>
> P: Só quando nós o ajudámos e aos mujahadin a repelir a invasão
>soviética do Afeganistão, nos anos 80.
>
> F: Quem são os soviéticos? Não eram do Império do Mal, comunista,
>que Ronald Reagan falava?
>
> P: Já não há soviéticos. A União Soviética acabou por volta de
>1990, e agora eles têm eleições e capitalismo como nós. Agora os
>chamamos de russos.
>
> F: Então os soviéticos, quero dizer, os russos, agora são nossos
>amigos?
>
> P: Mais ou menos. Eles foram nossos amigos durante uns anos,
>quando deixaram de ser soviéticos, mas depois decidiram não nos
>apoiar na invasão do Iraque, por isso agora estamos aborrecidos
>com eles. Também estamos aborrecidos com os franceses e com os
>alemães porque eles também não nos ajudaram a invadir o Iraque.
>
> F: Então os franceses e os alemães também são maus?
>
> P: Não completamente, mas suficientemente maus para termos mudado
>o nome das French Fries (batatas fritas) e das French Toasts para
>Freedom Fries (batatas da liberdade) e Freedom Toasts.
>
> F: O Iraque não foi um dos nossos amigos nos anos 80?
>
> P: Sim, durante algum tempo.
>
> F: Saddam Hussein não era então o líder do Iraque?
>
> P: Sim, mas nessa altura ele estava em guerra contra o Irã, o que
>fazia dele nosso amigo.
>
> F: Porque é que isso fez dele nosso amigo?
>
> P: Porque naquela altura o Irã era nosso inimigo.
>
> F: Isso não foi quando ele lançou gás contra os curdos?
>
> P: Sim, mas como ele estava em guerra contra o Irã, nós fazíamos
>de conta que não víamos, para lhe mostrar que éramos seus amigos.
>
> F: Então, quem lutar contra um dos nossos inimigos torna-se
>automaticamente nosso amigo?
>
> P: A maior parte das vezes sim.
>
> F: E quando alguém luta contra um dos nossos amigos torna-se
>automaticamente nosso inimigo?
>
> P: Às vezes isso é verdade. Porém, se as empresas americanas
>puderem lucrar vendendo armas para ambos os lados, ao mesmo tempo,
>tanto melhor.
>
> F: Porquê?
>
> P: Porque a guerra é boa para a economia, o que significa que a
>guerra é boa para a América. Além disso, já que Deus está do lado da
>América, quem se opõe à guerra é um ateu, anti-americano, comunista.
>Percebes agora porque é que atacamos o Iraque?
>
> F: Acho que sim. Nós atacamos porque era a vontade de Deus,
>certo?
>
> P: Sim.
> F: Mas como é que nós sabíamos que Deus queria que atacassemos o
>Iraque?
>
> P: Bem, Deus fala pessoalmente com George W. Bush e lhe diz o que
>fazer.
>
> F: Então, basicamente, você está dizendo que atacamos o Iraque
>porque George W. Bush ouve vozes na cabeça?
>
> P: Isso mesmo! Finalmente você percebeu como o mundo funciona.
>Agora fecha os olhos e dorme.
>

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