Uma Noite na Taverna

12 março 2004



Estive pensando sobre a semelhança entre o ato de escrever e a música.
Limitados por sete notas, alguns bémois e sustenidos, montam-se acordes e melodias em andamentos mutantes e variados capazes de transmitir ao cérebro sensações diversas que vão da euforia ao relaxamento, da ira ao deleite. Viciam e se propagam entre todos. Assobia-se Beethoven, dançamos Prodigy. Alguém entende o que foi aquele andamento? A música contagia ao simples contato. Estimula uma busca, gera grupos, tribos, dança, quer falar e fala todos os dialetos.
As letras dançam soltas num papel em branco. Vinte e três letras, alguns dígrafos e um monte de regras para gerar discurso. As letras eternizam pensamentos. Pensamentos que irão soar nas mentes de outras pessoas com suas próprias vozes interiores. Vozes sem audição, imaginárias, criadas no signo comum entre os de uma mesma nação (Maldita Babel, os castigos de Deus são bem feitos). Quando bem conduzidas, as imagens do papel também irão gerar sentimentos diversos, as letras são o caminho mais rápido à imaginação. Mas vão fazer mais que isso : as letras vão convencer, gerar mitos, comportamentos, seitas, revoluções (alguns poetas sempre sonham alcançar isso). As letras buscam as almas.
Infelizmente, o poder das letras é menor por causa de sua grande força. Para amá-las é preciso que se ensine a amar o mundo que o rodeia, buscar mais do que o discurso pode oferecer, do que os governos ou a mass media querem oferecer. Escrita não é como a música, não é para todos.
Mas, e se fosse para todos?

Poética

Bocas palavreiam palavras e palavrões
Lábios línguas e dentes articulam
Palavreados e palavradas sem razão de ser

Isolado o poeta contempla extático o silêncio
O baile das letras sobre o papel
E enquanto tagarelam perdidas as bocas
O poeta apenas assovia

Henrique Santos



Há um mito, o de Teut, inventor da escrita, que conta a surpresa do Faraó ao contemplar o novo invento. Para o Faraó Tamus, a invenção de Teut, apresentada como uma arma a favor da memória do conhecimento adquirido, que tornaria os egípcios mais sábios e aptos a recordar, representaria um perigo. Ao dispensarem do exercício da memória, eles produziriam o olvido na alma dos que já aprenderam e estes, confiando na escrita, recordariam por sinais externos e não por si, mediante seu próprio esforço interior.

(adaptado de Fedro de Sócrates)