Uma Noite na Taverna

14 setembro 2004

Sobre a Santa Sé, a falsa fé e a burocracia


A tensão causada pela tese de que não há moto-perpetuo abalaram a cidade de Ur. O Priorado já havia sido reunido para fazer cessar toda e qualquer tentativa de construir uma máquina que almejasse alcançar o famigerado estado.
Yem Wabii Galmesh, viajante oriental, profeta em sua cidade natal, chega a Ur para obter as peças de cerâmica para suas clepsidras e fazer algumas anotações astronômicas.
- Onde posso encontrar o sábio Daestiny? - pergunta no templo principal de Ur ao sacerdote menor Tabek.
- Você não pode entrar sempre aqui com essa sua empáfia e sem obedecer os ritos completos para falar com os sacerdotes maiores, profeta estrangeiro.
- Diga ao mestre Tonsei que eu já me ajoelhei diante de todos os ritos nos templos menores e busquei o selo de todos os templos médios na primeira vez em que nos encontramos. Quando fiz isso, apenas por respeito, obtive permissão para falar com ele. E, apenas por respeito...
Eis que mestre Tonsei irrompe sala a dentro mexendo rapidamente com as mãos para que todos saiam.
Galmesh senta sobre uma almofadas luxuosas que compõe a sala de trono do templo onde estão e observa sorrindo os guardas e sacerdotes saírem.
- Minhas sinceras saudações, Tonsei.
- Profeta insolente, como ousa?
- Construo clepsidras, lembra?
- Herege!
- Alto lá!- o profeta interrompe o sacerdote em voz alta, levantando-se da almofada.
Tonsei emudece sob o olhar sério de Galmesh.
- Cumpri os seus ritos mais absurdos apenas para ter a chance de ter uma entrevista com um homem que se arroga o direito de ser chamado de Sua Santidade. Discuti com este homem que ao organizar a sua doutrina poderia fazê-lo sem esta "ritualística" desnecessária. Expliquei a esse mesmo homem no que podem crer os homens que respeitam as falas da alma e da natureza e que as palavras de ordem devem querer sempre o bem dos homens.
- Você não acredita em nossos valores.
- Eu me expliquei a você.
Tonsei estava visivelmente perturbado com a presença daquele estrangeiro que parecia não temer a morte que ele poderia decretar-lhe a qualquer momento. Não podia negar o profundo respeito que ele conquistara ao derrotar dois de seus guardas apenas para uma entrevista.
- E não violei o segredo de nossa conversa.
- Eles estão nos ouvindo escondidos.
- Não me importa. Não tenho a intenção de fazer o povo enxergar a tirania que sua religião impôs às pessoas para que vocês vivessem no luxo. Quero apenas estar livre das obrigações impostas aos outros pelos seus costumes.
- A sua presença na cidade já é uma afronta a minha autoridade e ainda me pede para afrontar a crença?
- Seus guardas têm a minha palavra de que não irei abusar de meus direitos e não excederei em nada que possa ser considerado heresia.
- Que assim seja. Vá procurar Daestiny nas catacumbas. Os guardas o escoltarão.
- Assim seja. Que a luz se faça, Tonsei.

(continua)