Análise Infeliz


Creio que a maior parte dos brasileiros recebeu a notícia da nacionalização do gás boliviano com espanto. Não estamos acostumados a ver, como víamos há mais de vinte anos, um movimento de defesa dos direitos nacionais na América do Sul que envolvesse militares sem constituir um golpe. Nosso nacionalismo sai da letargia e bradamos nos bares a necessidade de invadir a Bolívia e tomar o que é "nosso" porque a PETROBRÁS é "nossa". Mas a PETROBRÁS é uma empresa e, como tal, vai zelar pelos seus interesses, ainda que sob condições adversas, como rezam as boas leis do mercado. A Bolívia exigiu um direito "natural" e os investimentos que foram feitos lá deverão ser integralmente resgatados, ponto final.
Perde o Brasil com isto? Claro que perde. O realinhamento dos preços para níveis internacionais já é uma realidade. Os custos crescerão em vários setores que utilizam o insumo energético. O recálculo dos investimentos vai retrair certamente alguns novos postos de trabalho. Não teremos gás mais caro que o álcool mas devemos ter aumento para o consumidor final. O brasileiro perde mas ganhamos muito mais com a ferida exposta : percebemos fortemente que falta uma postura diplomática real de liderança do Brasil e falta um planejamento energético preventivo. Sentamos em nossas poltronas nos achando líderes enquanto Chavez sabota nossas chances de ampliar nosso comércio com os EUA via ALCA e amplia sua fonte de financiamento: A PDVSA. Esquecemos, e somos bons nisso, do "apagão de Fernando Henrique" e dos 12 anos de estagnação que fizeram o crescimento vegetativo da indústria ser tão pequeno e nos deu a aclamada "auto-suficiência" em petróleo. Os EUA não são auto-suficientes e não vi ninguém falar sobre isso.
Mas pior do que tudo isto é vermos agora uma série de jornalistas de economia dando pitaco como se fosse fácil conduzir algo diplomaticamente. Esse é o erro de Miriam Leitão principalmente. Como economista sua análise está longe de apresentar erro sobre os impactos da crise, mas sua leitura da postura do governo frente a crise é tosca e infantil a exemplo da análise que ela mesmo fez do governo Chavez (de quem não gosta publicamente) durante o golpe que o afastou durante dois dias. Neste episódio Miriam foi criticada duramente por Celso Amorim que apontou várias falhas em suas considerações em entrevista ao Bom Dia Brasil. O meu conselho a Miriam é que se ponha no lugar do policy maker e entenda o jogo de xadrez internacional como algo que se joga pensando nos próximos dois movimentos. Certamente não jogamos contra Evo, mas contra Chavez e Kirchner. É mais fácil apontar os problemas que "suas" sugestões causariam na política externa, claramente fragilizada. Sendo inteiramente racionais, não podemos simplesmente "bater de frente" com esse cavalo que pula um peão e come nossa torre. Admitir a perda dessa batalha nos fará pensar sobre a posição no mundo que negamos: a de alternativa para a América do Sul. E mais, nos permitirá pensar sobre o impacto real do que Chavez faz de fato, sem o ar arrogante, tão constante em Miriam e em Celso por exemplo. Vamos nos isolar ainda mais? Mudar de idéia sobre a ALCA?
Agora os brasileiros talvez pensem a respeito da questão internacional mais a fundo. Ou estamos com Chavez ou com os EUA tanto comercial quanto ideologicamente, sem meio termo como querem. A arte da guerra envolve dissimulação e realinhamento. Mas isso só vale depois que escolhermos se vamos jogar com as vermelhas azuis e brancas ou com as peças verdes e amarelas.

O autor deste blog em Carta a Globo.

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