Do calabouço




Há uma dúzia de metáforas lá fora
Aqui dentro não há nada sublime
Não há ritmos ou paisagens inspiradoras
Ou vontade de recriar a realidade
Recontar a história da humanidade
Apresentar seus mitos, uma prece,
Ou entoar uma canção.

As metáforas lá fora
E aqui dentro um cansaço
Um tédio com a marcha do mundo
Com a política e as escolhas de meu país.
Logo eu, que não acredito em fronteiras,
Quero agora sofrer com as escolhas dos outros?

Eu que não entendo nada
E ando cheio de opinião
Que sei das engrenagens sinistras da máquina do mundo
E ainda me assombro com sua música
Deixei aberta a caixa onde a esperança
Residia como um pássaro cativo

E, sem esperança, ó musa
Como sairei as ruas com a mesma empáfia
A desafiar a cretinice do planeta
Ignorando os falsos profetas e caretas?
O meu escudo da fé amassado
Vários cigarros ao lado do copo de cerveja.

Aqui dentro, uma pátria sem deus,
Onde as regras do mundo são piada,
Onde o sonho é a armadura
E a palavra é a espada,
Construí um castelo de argumentos
E me escondi sem lágrimas no calabouço

Mas há uma janela sem grades, há o tempo.
As metáforas não se foram, querem transformar
Esperam que eu ponha a cara lá fora, suba em palanques
E me embriague de poesia e vinho novamente
Por enquanto há somente o desabafo, a solidão
Palavras que se negam a tomar a forma de versos

Quando você voltar a sorrir ao meu lado, ó musa
e a esperança pousar em minha torre de idéias
Num outro dia, quando acabar o cansaço
Volto a crer que algumas palavras possam fazer a diferença
Volto a me embebedar de virtude
E a me importar mais com o mundo lá fora.


22/04/2012

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