Uma Noite na Taverna

02 novembro 2014

Do calabouço




Há uma dúzia de metáforas lá fora
Aqui dentro não há nada sublime
Não há ritmos ou paisagens inspiradoras
Ou vontade de recriar a realidade
Recontar a história da humanidade
Apresentar seus mitos, uma prece,
Ou entoar uma canção.

As metáforas lá fora
E aqui dentro um cansaço
Um tédio com a marcha do mundo
Com a política e as escolhas de meu país.
Logo eu, que não acredito em fronteiras,
Quero agora sofrer com as escolhas dos outros?

Eu que não entendo nada
E ando cheio de opinião
Que sei das engrenagens sinistras da máquina do mundo
E ainda me assombro com sua música
Deixei aberta a caixa onde a esperança
Residia como um pássaro cativo

E, sem esperança, ó musa
Como sairei as ruas com a mesma empáfia
A desafiar a cretinice do planeta
Ignorando os falsos profetas e caretas?
O meu escudo da fé amassado
Vários cigarros ao lado do copo de cerveja.

Aqui dentro, uma pátria sem deus,
Onde as regras do mundo são piada,
Onde o sonho é a armadura
E a palavra é a espada,
Construí um castelo de argumentos
E me escondi sem lágrimas no calabouço

Mas há uma janela sem grades, há o tempo.
As metáforas não se foram, querem transformar
Esperam que eu ponha a cara lá fora, suba em palanques
E me embriague de poesia e vinho novamente
Por enquanto há somente o desabafo, a solidão
Palavras que se negam a tomar a forma de versos

Quando você voltar a sorrir ao meu lado, ó musa
e a esperança pousar em minha torre de idéias
Num outro dia, quando acabar o cansaço
Volto a crer que algumas palavras possam fazer a diferença
Volto a me embebedar de virtude
E a me importar mais com o mundo lá fora.


22/04/2012