Uma Noite na Taverna

30 abril 2013

Poema Sujo




Nasceu
Em algum lugar pegajoso de minha alma
Num emaranhado confuso de idéias e palavras
Regadas com ódio e inconformismo
Um poema sujo

Lá vai ele, debochado e desbocado,
Zoar as carolas das quermesses

Ele é mau e tirano
E não perdoa a bondade inútil dos apáticos
Critica a excessiva fé dos céticos
E a hipocrisia exarcebada dos crentes

Ele é sujo
Não quer agradar

Pensava em escrever sobre o amor
Mas o poema não me deixa
Ele está cansado da tentativa de se pasteurizar o amor
"Meninas, bebam leite" ele grita
"Bebam leite"

O amor resultou inútil para o sujo
Porque o sujo quer o movimento da carne
Não quer falar de amor
Falar de amor não vale a pena
Senão é só falar
e aí é uma pena
Pena de quem não sabe amar
E fica escolhendo condicionantes

"Bebam leite meninas"

Meu poema sujo organizou uma passeata a partir do Largo da Carioca
Marchou até a Lapa pedindo a dissolução do Congresso
a baixa do preço da cachaça e a liberdade para os pássaros engaiolados

Ele sabe que não vai mudar o mundo
mas não vai tomar banho e sentar na sala
arrotando strogonoff em frente ao Programa do Ratinho
ou do Pedro Bial

Vai à rua, sujar-se,
conhecer novas lamas, idéias, odores, ó dores, Dolores, Camilas
"Bebam leite meninas"

Meu poema sujo quer fuder as estruturas
O status quo, o quid pro quod
Mas não goza
não goza
não goza
não goza
Porque a realidade das coisas é coitus interruptus
Ele goza é na cara
da minha já fudida paciência

E, quando penso que a noite irá levar o poema e a insônia,
O amor, a guerra, as passeatas, a cachaça, a Lapa, São Gonçalo,
a política, a televisão, pseudo-artistas-intelectuais, artistas sem intelecto
o espelho em cima da escrivaninha de Dolores
e a incompetência em desenvolver a habilidade de não se importar,
Copulam freneticamente com o poema sujo
Gerando outros milhares de poemas sujos

Sujos feios e maus