Uma Noite na Taverna

04 maio 2004

Qualidade musical.

É sempre interessante ouvir as discussões acaloradas que leigos e músicos traçam a respeito do que é produzido em música. Seja ela erudita, eletrônica, pop, popular, baiana ou instrumental, sempre haverá uma resenha, um comentário, um artigo ou um especial a respeito.
O crivo do "bom gosto", comumente usado para impor tendências, é apenas uma tentativa de auto-afirmação e não passa disso. Tanto vale para os guetos de Heavy Metal ou para os amantes da bossa. A música, fenômeno social, tem também a sua função de "hino". Nasce nos guetos, underground e aristocrático, sertanejo e funk, como elemento representativo destes meios. A música ganha os contornos destes grupos, seus discursos e ideologias, e passa a ter um papel distinto para cada um deles, tornando-se a sua assinatura, seu ponto de referência.
O culto à personalidade do artista acaba transcendendo à sua forma de comunicação (nem toda música é arte). O artista, que muitas vezes nem mesmo assume esse papel, é como o shaman e deve desempenhar um papel coerente com a ideologia do grupo para o qual está voltado. Caso não o faça, corre o risco de ter sua obra taxada como "não original", "falsa", "sem atitude".
Fica díficil não notar a hojerizah criada por movimentos que tendem a fundir diferentes vertentes musicais. O crossover no rock e o fusion no jazz ilustram bem isso. Sempre haverá "puristas" que não aceitarão nunca dividir o seu "espaço sagrado". Juntar estilos e inovar ritmos é aproximar guetos, unificar discursos através de um referencial comum. Chico Science, Aerosmith, AC/DC e Marcelo D2 (até demais) são exemplos disto no cenário pop e John Williams no erudito.
Acho hilário comparar, traçar paralelos ou tentar justificar quaisquer discriminações baseadas apenas no crivo "bom gosto". O crivo mais importante para mim sempre será o da arte. E o estado sutil em que a arte transforma emoção em música será, para mim, sempre o mais importante fator a ser considerado. Isto não me impedirá nunca de ouvir Bezerra da Silva no churrasco ou me fará evitar a discussão acerca do melhor guitarrista. Simplesmente, é a qualidade do conjunto da obra, seu papel na história, o que me aparecerá como arte.
O resto será apenas entretenimento.