Três mulheres : a entrevista.

CAP 1 - LILITH

Altas horas da madrugada. Sentadas ao redor da mesa de um programa qualquer de tevê as três mulheres são convidadas a expor suas exóticas histórias de vida. Poderia ser um programa como qualquer outro se essas três não fossem justamente as três mulheres de Adão.

A entrevistadora faz as apresentações, agradecimentos e o merchandise de sempre e finalmente, após a "musiquinha da chamada", começa o debate.


- Lilith, uma dúvida, os demônios são melhores de cama que Adão?


- Mas que porra de pergunta é essa? Isso é um daqueles programas baixo nível da tevê aberta por acaso? Hmpft! Você só me bota em furada Eva!


- Calma, minha querida! Nossos espectadores só querem saber por que você largou o paraíso pra viver entre os caídos.


- Caídos? Você ainda ofende a minha prole! É o fim da picada!


Eva, sabendo do gênio de Lilith, decide intervir ao seu jeito.


- Lilith, entrega o jogo de uma vez, conte a história que o povo não conhece. Adão era insuportável mesmo.

-Pô, o Adão... Adão era um bunda mole. Eu, não entendo até hoje porque a humanidade aceitou esse papo furado de que eu era a parte má do ser Adâmico, o ser humano original, homem e mulher perfeitamente fundidos...

- Perfeitamente, não. Na verdade, o projeto sofreu um recall divino... interfere Eva mais uma vez.

- (...) 'Tá bom, tinha um erro de projeto que deixou a gente auto-suficiente demais. Surgiu a solidão, sabe?; uma vontade doida de sentir prazer com outro alguém que não se realizava...

- Paraíso só na punhetinha não dava, né?

- Cala a boca, Eva, cacete!

- Foi o puto do Samael que desenhou essa libido.- completa Eva.

- Mas, continuando o que eu dizia, chegamos a um consenso com o Projetista para separar nossos corpos em dois seres complementares. Era uma idéia genial pra matar a nossa solidão e, claro, a vontade corrosiva de fuder também. Infelizmente, a mão-de-obra no início dos tempos era muito inexperiente e não dosou bem a divisão. Se eu soubesse que iam fazer a merda que fizeram eu não deixava. No final, o Adão ficou com tudo, até a raiz do nosso nome original. Os nossos pedidos eram encaminhados através dele porque Deus não queria que a divisão acarretasse o dobro na demanda de desejos. O desgraçado começou a viajar na maionese e dizia que era a personificação de nossa identidade anterior, Deus o escolhera e blá-blá pão duro. Ele era só uma espécie de representante da turma, porra. Eu não passava de uma personalidade desviante pra ele. -a irada face de Lilith deixa uma lágrima à mostra -Em resumo, eu era inferior na opinião daquele sacripantas. - irrompe o choro e a platéia solta um oh! compassionado.

- Que coisa horrível! Que Monstro! Diz a apresentadora emocionada. Emocionada ao pensar no Ibope que dá ver uma mulher chorando.

- Eu fiquei com a maior parte da libido, com o lado selvagem e sem medo. Sabia que era igual e exigia respeito. Adão ficou com o medo, com a soberba e a babaquice. Ficou com medo de mim, parte de seu passado que agora queria em segredo, e, por isso, não aprendeu comigo a amar.

-Você queria amar vindo por cima, na hora que o desejo pintasse e ele não aceitava essa sua segurança?

- Eu era a ousadia e ele me rejeitou. Responde Lilith à apresentadora.

- E você não sofreu com isso?

- Sofrer, sofrer, não? Fiquei magoada, sim, pois gostava daquele safado. Mas eu era também o primeiro ser que pisara na face do planeta e não ia ficar me remoendo só porque a minha "outra parte" decidiu que era a cereja do bolo da criação e não encarava um fio terra de vez em quando. Os incomodados que se mudem, não é mesmo?. Fugi bradando indignação contra o Projetista e, na calada da noite, aprendi a cavalgar os ventos e deixei aquele viadinho no Paraíso. Decidi que ia procurar o inventor dessa vontade maluca de fuder que eu tinha e iria me acabar de tanto transar.

- Uau! Debaixo dessa pose de mandona você é uma safadona, hein? Vamos chamar os comerciais e continuar nosso papo no próximo bloco.

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