Uma história do Diabo




Um conto da Guerra Infernal por Raul Kuk

SANTOS NO INFERNO


Seis meses atrás...

O tempo continuava sua marcha, inexorável, rumo ao fim. Os sinais eram claros. Nada de rios de negros, bolas de fogo ou chuvas de sangue. Era tarde demais para essas alegorias bizarras do juízo final. Lúcifer sabia muito bem o que estava porvir.

Havia um jogo em andamento, desde o princípio dos tempos. Uma batalha entre o bem e o mal, sombras e luz, paixão e virtude. Agora, finalmente essa batalha faria vítimas.

Ele sabia a contagem de corpos.

A garçonete se aproximou de Estrela da Manhã, trazendo a conta:

- São três dólares e cinqüenta centavos, senhor.

- Aqui está. Me diga, o padre Carey ainda mora aqui?

- Desculpe... Padre Carey?

- Sim, ele se afastou da ordem em 84.

- Você deve estar falando do velho Carey, só pode. Não sabia que ele tinha sido padre. Ele mora num quarto alugado, nos fundos da casa dos Weston. O senhor é parente dele?

- Não. Meus parentes estão condenados à morte pela espada.

Estrela da Manhã saiu, deixando uma atônita garçonete com vontade de ir rezar no banheiro.

A casa dos Weston era um velho casarão, daqueles que você só encontra no Louisiana. Mas alli era Detroit. Olhar para o casarão era como ter um dèja-vu. O anjo caído aproximou-se do portão e, não vendo ninguém, entrou. Um rapaz veio a seu encontro, interpelando-o:

- Peraí, amigo! Aonde pensa que vai?

- Eu vou falar com o padre Carey, me dê licença.

- Licença o caralho! Não pense que pode ir entrando assim na casa dos outros, não! Por que você não se anunciou? Não viu a campainha?

- Meu jovem, de onde eu venho, não preciso anunciar minha chegada pois ela é precedida de choro e ranger de dentes. Saia do meu caminho, sim?

- DEIXE-O! – gritou o velho padre Carey de uma janela na edícula dos fundos. – Ele é um... velho amigo, Chris. Deixe-o entrar!

Lúcifer passa pelo dono do casarão sem esboçar nenhuma expressão de vitória. Mas, assim que sua sombra toca o ombro do jovem, ele sente um profundo mal-estar, uma saudade das coisas que tem e medo de jamais vê-las novamente. Ele entrou em casa apressado, abraçou um velho baú com recordações da esposa que viajava e chorou copiosamente, implorando aos céus para que ela chegasse bem em casa.

Estrela da Manhã entrou na edícula, onde o padre Carey o esperava:

- Como vai, Satã? Sente-se aqui, sim?

- Não me chame assim, padre. Esse nome supersticioso me dá náuseas.

- E não me chame de padre. Eu não sou mais padre, você sabe disso.

- Sim, mas não entendi o por quê. Saudável, lúcido...

- Que pergunta idiota! Passei a vida toda pregando para que as pessoas se afastassem do caminho do mal, até que conheci o mal e nos tornamos amigos!

- Isso devia ser motivo suficiente para que o senhor continuasse pregando.

- Contra o quê? Eu vi o mal. Vi violência nas ruas e no coração das pessoas, vi sangue inocente sendo derramado, ouvi confissões de velhas senhoras e homens de reputação que fariam até você corar. Eu vi o mal, reconheço o mal e sei que você não é a essência do mal. Então, contra o que eu vou pregar?

- Por que você se pergunta “contra o que pregar” ao invés de se perguntar “a favor do que pregar”? Você não deveria valorizar a fé e a redenção ao invés do medo?

- Está vendo? Esse é o maior mal que você pode fazer. Questionar. Foi por isso que você foi expulso do Paraíso num primeiro momento, Satã. Você me mostrou um Deus incapaz de perdoar um filho que errou, um pai que pune seu primogênito com a danação eterna. Não é esse o Deus em que eu acreditava. O Deus em que eu acreditava teria perdoado você ao ver seu arrependimento. Teria acolhido você de volta, apesar de sua arrogância e prepotência.

- É estranho alguém que entenda isso com tanta clareza...

- Minha alma é sua, Satã?

- Nah! O que eu faria com ela? Estou cheio desse jogo.

- E o que você quer, afinal?

- Quero meu emprego de volta.

O padre se calou. Como dizer ao diabo que isso era impossível, se ele mesmo já havia desistido da redenção?

- Não é por redenção, padre. – disse Estrela da Manhã, como se pudesse ler os pensamentos do padre. – É por direito. Ao longo de eras, eu O tenho visto tomar suas decisões e armar seus jogos, sem sequer me levar em consideração. Eu fui banido, em todos os sentidos. Minha ausência não é sentida, assim como minha presença é desconsiderada. É tudo um grande erro, ele não devia ter feito isso, não devia! O preço a ser pago por uma pergunta, uma simples e maldita pergunta, foi uma eternidade de rejeição! Eu estou farto desse jogo!

- Satã – interrompeu o padre Carey – Qual foi a pergunta?

Estrela da Manhã hesitou em responder. Jamais havia contado a alguém o que tinha dito ao Criador que causara sua expulsão do Paraíso. A idéia de que almas mortais tivessem acesso a esse conhecimento poderia arriscar toda a delicada ordem celestial. Mas... Pensando bem... O fim estava próximo, mesmo...

- Eu perguntei se as regras de conduta moral criadas para os homens mortais valiam para ele.

- E?

- E só. Ele me expulsou do Elíseo, para “provar que as regras eram dele”.

- A que você se referia quando mencionou “regras de conduta moral”?

- Ele os ordenou que perdoassem. Ele jamais os perdoa. Vocês erram e são arremessados no inferno. Que pai enviaria o filho, quando esse cometesse um erro, a um quarto escuro, onde ele seria surrado todos os dias, até o fim dos tempos? Nenhum pai mortal, eu garanto. Mas Ele parece não se importar com o tempo.

- Satã, Ele ao menos respondeu sua pergunta?

- Não.

- E você jamais pensou sobre isso?

- Caminhar entre vocês, desprovido da minha condição, é resposta mais que suficiente.

- Você nos odeia tanto assim?

- Não, padre. Eu não odeio vocês. Eu não odeio ninguém, nem o Criador que me puniu, nem os meus irmãos que me abandonaram, nem Morpheus ou Constantine, que me desafiaram... Nem Mefisto ou Neron, com quem dividi meu feudo... O que fiz, não fiz por ódio ou ressentimento. Foi porque eu ainda tinha uma pergunta, uma única pergunta cuja resposta jamais me foi mostrada.

- E qual é?

- Como as coisas seriam se eu estivesse em minha antiga posição.

- Isso... Isso é terrível. E irônico. E engraçado. Um padre discutindo filosofia e teologia com o diabo... Chega a ser patético! Hahahaha! Do que estamos falando afinal? Eu deveria odiar você.

- Mas não pode.

- Eu posso. E odeio você, Satã, e tudo que você representa.

- Que grande mentira. Acorde, padre! Eu sou mais importante para você e para todos os outros fiéis do mundo, mais importante que o próprio Deus! Eu sou a razão de sua vocação, eu sou a força que o motivou, amedrontou e acolheu! Você me ama através do espelho, mas é incapaz de admitir!

- Essa é a teoria mais idiota que já ouvi...

- Acha mesmo, padre? Então, me responda... Quando você tinha dúvidas... Quando sua fé fraquejava... Qual era seu maior medo? O aprisionamento eterno em meu reino, o “lago de enxofre sulfuroso”, ou descobrir as respostas para as perguntas fundamentais que eu havia plantado? Como “qual a razão da fé”, “onde acabamos”, “o que motiva Deus”?

O padre se calou. Realmente, a única coisa mais assustadora que o próprio diabo eram suas perguntas. As respostas eram uma questão de fé, e a fé poderia nubla-las. Mas nada causava maior tormento do que ter perguntas que não deviam ser respondidas. Questionamentos que não podiam ser partilhados. Esse era o verdadeiro inferno.

A fé eternamente solitária e fadada a questões.

- Saia daqui, Satã. Me deixe em paz.

- Como quiser, padre.

Estrela da Manhã continuou vagando, solitário, até um parque no centro de Detroit. Não era muito arborizado, mas o lembrava de lugares que ele havia conhecido. Lugares que ele havia visto no princípio dos tempos, antes da humanidade.

Antes da questão.

Ele precisava de respostas.

A hora finalmente havia chegado.

- Rafael – disse Estrela da Manhã. – Rafael, eu preciso falar com você.

O ambiente foi tomado por um zumbido familiar. Naquele parque, ninguém seria capaz de ver a chegada de Rafael, um dos primeiros anjos, irmão de Lúcifer. A conversa que se seguiu foi nublada aos olhos humanos por um véu. Rafael apareceu em todo seu esplendor, mas abriu mão das honrarias, assumindo aparência de carne mortal. O véu se desfez. Dois homens conversavam em um banco do parque, apenas isso.

- Como vai, meu irmão?

- Nós precisamos conversar, Rafael.

- O que aconteceu?

- Você sabe. A hora chegou. Eu estou farto disto. Gabriel não vai me ouvir, Miguel não vai me ouvir. Minha única chance de impedir que o Elíseo caia dentro do Inferno é você.

- Meu irmão, os últimos acontecimentos...

- Os últimos acontecimentos significam que até mesmo os deuses podem morrer! Neron e Mefisto estão engalfinhados em uma guerra para mostrar quem pode mais, Hela, Loki e os asgardianos não vão ficar apenas olhando! Temos anjos e demônios e spawns se digladiando! Você sabe o que isso significa? Quanto tempo resta até que essa guerra chegue ao Elíseo e tenhamos que libertar o Santo? Se aquele desgraçado caminhar sobre a Terra novamente, nossa próxima conversa será diante do cano das armas dele. O que vai ser, Rafael? Que tal me ouvir?

E Rafael preferiu ouvir.

Rafael era o mais jovem dos Primordiais. Quando o mais velho, Lúcifer, se rebelou, Rafael foi o único a lhe dizer adeus. Os outros dois, Gabriel e Miguel, tiveram medo de que o Pai visse isso como uma afronta e não se despediram do irmão, nem dos outros caídos.

Mas Rafael era quase ingênuo em sua pureza.

Jamais entendeu porque o irmão estava sendo banido.

Jamais ouviu a história toda.

Até agora.

Lúcifer contou sua indignação com a maneira como as decisões eram tomadas. Contou sobre o dia em que decidiu perguntar ao Pai o que estava errado com o mundo. O que estava errado com Ele. E, à medida que a narrativa continuava, Rafael descobria que os outros Primordiais haviam dado as costas a Lúcifer, num momento em que o apoio da família era a única coisa que poderia salva-lo. Mas, mesmo depois de milênios, talvez não fosse tarde demais. Talvez se o Pai aceitasse ouvir um dos Primordiais em defesa de Estrela da Manhã, ele fosse aceito novamente no Elíseo. E pudesse deter a Guerra Infernal, antes que o Paraíso se tornasse apenas uma metáfora muito distante na mente da humanidade.

- Eu não posso. Nossos irmãos não nos deixarão entrar.

- Eu só vou conseguir com um salvo-conduto seu, Rafael. Não temos escolha.

- Mas e se...

- Você não teve medo antes, Rafael! Por que se esconder agora? Você não vai ser punido por me guiar ao Elíseo, já que muitos mortais caminham por lá, e até o Spawn!

- As circunstâncias diziam respeito ao julgamento de uma caçadora, não à uma audiência com o Pai!

- Sera que o Pai não ouve mais orações de seus filhos? É isso que você está me dizendo?

- Não deturpe minhas palavras, Estrela da Manhã!

- Não diga o que não sabe, Rafael. Apenas me leve até lá. As circunstâncias atuais dizem respeito ao fim de toda Criação. E eu posso deter o caos, mas preciso da autorização do Pai para erguer a mão contra os outros Caídos. Eu preciso voltar ao Elíseo.

Rafael analisou a situação. Guiar Estrela da Manhã ao Elíseo poderia significar uma punição ainda mais severa que a imposta a Lúcifer. Mas o que significaria a entrada de spawns, deuses e demônios no Elíseo? Um massacre? A libertação do Santo dos Assassinos? Quantos sobreviveriam a essa guerra, o que haveria para se comemorar após uma eventual vitória?

Haveria vitória?

Apenas se Lúcifer colocasse seu plano em prática: usar seu poder contra os cabeças dessa guerra, como Malebolgia. Mas precisava da autorização do Criador para punir quaisquer entidades, sob o risco de sofrer conseqüências desastrosas. Era necessário manter o equilíbrio.

- Está bem – disse Rafael. – Venha comigo. Vamos voltar para o Elíseo, Estrela da Manhã.

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