Homenagem a um Poeta Militante




Ossos

Vivo a escrever poemas simplórios em guardanapos molhados de cerveja,
Sentado à mesa de bares sujos e miseráveis como as minhas palavras,
Cercado de anjos com a maquiagem derretendo e demônios santos,
Conversando com seus donos, ouvindo seus planos de grandeza,
Compartilhando suas ambições de domínio do mundo através da sinuca,
Apenas para seus bares fecharem sem deixar rastros seis meses depois.

Ando a garatujar meus versos tolos em cadernos velhos,
Arrepiando-me cada vez que acho que encontrei a rima perfeita,
A metáfora inédita, o leitmotif incansável de um texto sublime,
E sinto passar por mim a ligeira sensação de que errei o caminho,
e que a encruzilhada já ficou para trás, tão distante,
Que já não tenho saco para retornar e mudar o rumo.

Teimo em rabiscar palavras anacrônicas no verso dos envelopes de banco,
Enquanto espero a fila para dar a outrem os parcos recursos que angariei,
Pensando no amor como um sabonete velho que chega ao seu último banho,
Fino e ressecado, mas que um dia chegou embalado em uma caixa bonita
E com um cheiro tão doce que nos dava vontade de comê-lo,
E que em breve encontrará seu destino, entupindo o ralo.

Continuo a batucar poesias ralas nos teclados de computadores,
Sem me dar conta de que um dia isso poderá ser considerado literatura,
Trazendo-me o ódio póstumo dos estudantes secundaristas que,
Conduzidos por bedéis estúpidos, terão que achar sentidos ocultos
E decifrar o zeitgeist de minha geração nas minhas linhas sujas e tortas,
Rabiscadas às pressas e sem sentido oculto nenhum.

Vivo a escrever poemas – sem ter mais a menor esperança
de um dia deles poder sobreviver, pagar contas,sobreviver deles,
como sobrevivem os adultos normais de seus trabalhos medíocres.
Mas continuo, porque não consigo parar, não sei fazer outra coisa,
E porque há as palavras, e há um sentido maior nessas minhas palavras,
Que vão muito além de cerveja, encruzilhada, sabonete e literatura.


Rodrigo Santos
Evoé!

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