12 fevereiro 2014

Poeta criança filósofo



O filósofo finge ser poeta
O poeta finge ser criança
A criança finge qualquer coisa
E sai voando

O filósofo finge ser criança
O poeta finge ser filósofo

A criança fabrica sonhos
Enquanto chatos contemplam os céus
Lotados de papagaios
Com olhos marejados
pés e alma
enfiados
no concreto

09 fevereiro 2014

Mais valia



Mais valia 
um poema
Na cabeça 
Que dinheiro 
Nas mãos 
Mais valia
Um poema 
Nas mãos 
Que a alma
Vazia
Mais valia
Um poema
Na cabeça 
Que a corda
No pescoço

Essa vida
Tá osso
Te arrancam
A pele
Pela mais valia
Quanto vale
A poesia?
Vida não vale
O que valia 
Uma junta
comercial 
Te avalia 
E o poema
Não te prende
Se ele abre
Portas 
Não importa
Só importa 
Se ele vende

Um dia
Mãos levadas 
Dos de alma lavada
Nos livrarão
Da mais valia

E pela pena
Levada
Dos de alma 
Lavada
Levados
Livros 
Serão livrados
Pelas mãos 
Da poesia

um dia, pelas mãos 
da poesia,
seremos levados
sem mais-
valia.

(Parceria entre Henrique Santos e Su Noguchi)

05 fevereiro 2014

O urubu em seu idílio



Gaiolas
Dão felicidade
A donos de gaiolas

Sou pássaro mudo
Certo de que os que cantam
Não enxergaram as grades
Ou temem o vôo

A ilusão do vôo
pular de poleiro em poleiro
No viveiro limitado de escolhas pré-determinadas

Não há espaço para abrir as asas
Na prisão do medo

A menor prisão do mundo é o medo
Engenheiros do medo
Professores do medo
Músicos e poetas do medo
Cantam melodias
Escrevem manuais do medo
Erguem universidades
Fazem mapas de suas gaiolas
Lindos quadros
Até mesmo dançam

Merda!
Todos tem asas
E há poucos gaviões entre nós
Quero voar alto
Não há karma na carniça que me alimenta
Tomai e comei vosso alpiste
Que minha fome é de justiça
E dada a vós por minha palavra

Aos senhores das gaiolas
Minha malandragem, minha greve,
Meu mal feito contraversivo
Meu verso subversivo
Meu fértil amor com contraceptivos
Minha moda em ser feio
Meu deboche-desdém-raio-molotov-discurso
Tomada de praça
Leitura
Livro
Livro
Livro
Debate
Reeducação
Sacrifício
Poesia

E silêncio!

02 fevereiro 2014

Blaseé


Blaseé


Não busco a verdade sem sentido
Busco dar sentido a verdade que sinto
Sem querer fiéis alunos ou soldados
Pois sequer sou mestre do que é em mim
O querer de meu coração

Não subirei a montanha mais alta
A procura de ascetas ou de Zaratustra
Não me tornarei nunca um super-homem
Ou descerei com tábuas vomitando regras
Para querer ser Avatar de qualquer nação

Não me abalam as conspirações ou (des)governos
Não procuro a fórmula da Coca Cola
Ou o nome secreto de Deus nos átomos
A cura do câncer ou da calvície
Não me tornarão Barão ou mesmo herói

Não quero ser presidente ou herói de nada
Não legislo profetizo proíbo ou recomendo
O guardanapo manchado de gordura deste poema
Não guarda segredos ocultos da pedra filosofal
E não foi inspirado por anjos, caídos ou não.

O poema no guardanapo tem função e objetivo
Que não a de bálsamo ou de salva-vidas
Não é salmo ou filosofia ou canção
Nada tem a ver com minha insônia ou dor de dente
Ou com minhas esperanças e desilusões

Ainda que eu tenha subido ao palco
Que tenha rasgado o peito e mostrado as veias
E tenha gritado verdades que descobri anteontem
Conversei com poucos irmãos e abraçados choramos
A morte do inconformismo, o medo do medo da morte

"Não sou eu quem vai mudar o mundo"
É o novo mandamento universal, novo grilhão
É o fim de tudo, o buraco negro do inconsciente coletivo
E o mundo não muda mesmo e continua
Acreditando em lindas superstições estéreis

Adiarei meu suicídio com estas cartas
E nelas buscarei conforto por não ter me curvado
Ainda que o futuro me perverta o coração
Ou me seduza com seus irreality shows
Este guardanapo irá congelar esta emoção

O sol nasce no fim da Frei Caneca
As cadeiras estão viradas sobre as mesas
E eu com meu guardanapo-espelho fotografo
O movimento do mundo ensimesmado e blasée
Que não reconhece a importância de nada

Agora, no espaço final deste esboço,
Posso confessar meu único último desejo
Que desejei há menos de um minuto
Feliz... Porque talvez me tenham ouvido
Busco, em meu ofício desvairado, provocar.

(Poema constante no livro "A dieta da felicidade")

31 janeiro 2014

Eles não entendem



Ó, Deus autônomo
não antropomórfico,
Perdoai os hereges mal evangelizados
Que têm preguiça de saborear vosso nome na natureza
com seu eterno devir.

Eles não entenderam o vosso amor.

Tende misericórdia destes primatas do terceiro planeta
Que elencam profetas e apresentam livros psicografados
Onde vós figurais como autor.
Terão sido menos Santos os livros dos poetas?
Estão cegos esses homens tolos
não compreendem a vossa substância em tudo
Pois a fé neles se manifesta na realização egoísta do indivíduo.
Professam loucuras insensatas como arrebatamento
E vos querem louco
como se fosse possível negar a lógica e sensatez da natureza.
Segurai minha ira contra esses usurpadores.

Eles definitivamente não entenderam o vosso amor.

Bato palmas para o pôr do sol para louvar a vida
E sei que o sol não precisa de palmas para nascer e brilhar
Mas sei, ó senhor amoral das mutações,
Que há os que fantasiam dominar vosso caminho com rituais inúteis.
Por não enxergar a beleza
Estão sempre dessincronizados.
Eu faço meus rituais para sorver a vossa graça
E meditar sobre vossa vontade com todo meu intelecto.
Mas, há, ó Inominável,
Aqueles que querem ser gado.

Eles, definitivamente, não vos amam
Entendem ou
Conhecem

E eu sei, Universo, que vós não ligais
E que só eu fico puto

25 janeiro 2014

Sobre a fantasia




A fantasia joga seu véu por sobre a realidade.

Eis a razão de tanta dor e decepção:
Queres o objeto, a pessoa e a situação
Não por eles mesmos ou pelo gozo real da presença
Mas pela realização da fantasia de que és escravo.

A fantasia que o escraviza o torna tirano,
Desaprendes a amar a paisagem plural
A liberdade das almas e o acaso.

A tua fantasia é a ânsia desenfreada,
O desassossego que te adoece.
A úlcera no teu estômago o regorgito frequente
São o grito de teu corpo
Que quer o momento presente.

Sê feliz naturalmente.
A natureza das coisas, das pessoas e das situações
É convergir para onde elas são necessárias.

A falta de sintonia traz a dor maior de não saber onde e porque dói
E tu, escravo ansioso de um milagre impossível,
Preferes entregar a deuses invisíveis o destino
A carregar e assentar os tijolos de ouro da estrada
Com as mãos que tens.

Abandona a fantasia
Deixa-a para os poetas
Que fantasiam a vida que vivem
Pois ninguém vive a vida que fantasia

21 dezembro 2013

Sobre a literatura




A literatura não pode salvá-lo.
Muito provavelmente ela irá adoecê-lo.
A literatura vai lhe revelar que tudo é possível no ser humano.
Quer ficar com uma única coletânea de livros, um único Deus, acreditar em "ismos" e perpetuar a máquina de desigualdades que o telejornal bancado pelo sistema financeiro chama de ordem?
Afaste-se da literatura.
Você pode correr o risco de esbarrar num livro sobre seus olhos.
E, quando seus olhos aprenderem a enxergar o mundo,
Seu sono pode ir embora.
Você pode começar a entender o sentido
por trás das histórias da carochinha
que lhe contam todos os dias
para mantê-lo dormindo.

Existe literatura para todo tipo de pensamento humano.
E você vai encontrar literatura para mantê-lo na gaiola
Ou literatura para torná-lo um artesão de gaiolas
Poesia que imita fotografias sobre rochas geladas
Manuais de conservação do cinismo frente a catástrofe
Meus amores nas estantes de supermercado
Ou como vencer na vida sendo um psicopata
Literatura-anestesia é o que mais vende
E a dor, se é que você sente isso realmente,
Pode vir embalada por sonhos estéreis e teorias do conformismo.
Histórias da carochinha
Para você dormir.

A literatura que irá lhe adoecer vai mostrar
que tudo é possível para o espírito humano
E que há poucos humanos nessa humanidade toda.
Seus olhos, interessados pelo discurso sobre a visão,
Procurarão novas capas
Entenderão outros olhos
E guiarão a idéia que move a língua.
Sua fala, impregnada pela descoberta de seus olhos,
Vai falar de mais do que literatura.
Vai falar do que é possível para o espírito humano.
E, porque tudo é possível para o espírito humano,
Ao fechar o livro, junto com seus irmãos,
Suas mãos e pernas acompanharão seus olhos
E você se tornará o personagem principal do seu sonho
O mundo sua tela de cinema
E a sua vida se tornará o maior romance de sucesso.

Ou você poderá adoecer
Simplesmente perder o sono
E produzir apenas mais literatura

30 outubro 2013

Na falta



Quando falta a calma
a alma
o sono
a cama
a voz
Quando falta o caminho
o carinho
o respeito
a cachaça
e o pensamento veloz

tenha fé em si
e minta pra sua dor
diga-lhe que volte amanhã
que você é forte
e não dá valor a ela

mas faça-o sem hesitar
senão ela fica
e vence


08 setembro 2013

Razão no amor




O amor é a razão de ser
Aprende a amar para dar razão a vida

Porque se algo em ti broxou
Foi em ti que broxou
Armadilhas do corpo
Tão infenso à efusão lírica

O beijo já não é o mesmo
O terceiro gole é desnecessário
Teus rituais, rotinas, crenças,namoros
Perderam a graça do ineditismo
Estás fatigado com tanto fastio
Não há mais surpresa com as flores
Teus olhos não notam a sutileza das cores
Tá tudo chato
Pois o homem
sem amor
fica seco
duro
Oco
Opaco

Sofrer na gangorra entre agonia e festejo
Servo do desejo, escravo de si mesmo
Quanto erro equilibrar-se entre esperança e medo
Viver não é esquivar-se de dores
Eis aí um segredo para ter mais amores

É mister que ames antes do suicídio

A medida em que avanças em idade
Põe a serviço do amor a tua racionalidade
Do amor razão única de ser
Fonte real de toda ciência

Assim como a semente
Realiza na árvore a potencialidade
Há em todos um pouco da estrela
Querendo brilhar

Ama com a tua inteligência
A burrice é broxante
E a burrice maior: não amar.

01 setembro 2013



Eu sei que sou um idiota
Ouviram?
Não precisam perder seu tempo erguendo o dedo contra mim
Sou tolo, néscio, apedeuta, inapto...
Descubro a cada derrota um novo sinônimo
A cada nova descoberta

A cada nova descoberta
Vejo que trilhei um lado errado do caminho
E esse tempo perdido me exaspera
Me exaspera mais do que o erro em tê-lo trilhado
O tempo é curto
Sou lento
Nasci torto
Sou um derrotado

Idiota, tomado pela desesperança,
Aprendi a rir de minha desgraça
Resignifico o sofrimento
Torno tudo divertido
Resumo: Faço versos

Deve ser por causa dessa crença
Estúpida, como tudo em mim,
De que a verdade
Está
lá fora
Essa minha crença inútil no espírito humano
Que eu não sei o que é
e tento explicar
Esse meu desejo de liberdade
Que me faz sofrer a ausência da coletividade
Que me faz questionar hierarquias
Ignorar títulos, comandas e medalhas
Limpar a bunda com as leis ou mapa-mundi
O que for mais suave é claro
Esse desejo que não me aponta uma rota feliz
Dá-me a certeza:
Eu sou incorrigivelmente doente
Não acredito em nada

Mas sinto enorme alegria
Quando me reúno com outros comediantes melancólicos
E, junto com eles, a ouvidos sadios e generosos
Para cantar canções sobre o futuro
Eu gosto de me encontrar com gente
Eu, idiota, cultivo sonhos
E tento plantá-los na cabeça das pessoas
Prova aqui este, que levei mil anos colhendo

Sei mal onde estou mas construo um futuro
Para não viver mais sob a sombra do muro
Que apelidei de ignorância.

O egoísta está sempre seguro
Me xinguem direito
Idiota, ignorante, imbecil
Está perfeito
Eu corro riscos e gosto de mim
Mesmo

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